Crítica Religiosa

Críticas a temas relacionados a qualquer visão religiosa

Luis Fernando Veríssimo – Territórios livres

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Novamente venho analisar um texto que supostamente defende o estado laico. Dessa vez é o “Territórios livres“, de Luis Fernando Veríssimo, publicado no Estado de São Paulo no dia 22 de março de 2012:

Territórios livres

Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra gira em torno do Sol e não o contrário.

O texto já começa mal… Se fosse um adolescente de segundo grau fazendo essa afirmação, ok, eu saberia que se trata de alguém que não fez o dever de casa: não estudou o assunto suficientemente. Mas quando quem faz a afirmação é um escritor com a cultura de Luis Fernando Veríssimo, começo a desconfiar. Não é possível que Veríssimo não saiba que Galileu não foi condenado por “defender a ideia herética de que é a Terra gira em torno do Sol”, mas por querer ensiná-la como se fosse uma verdade científica, quando na verdade ela era apenas uma hipótese que inclusive foi combatida por muitos dos astrônomos da época, e que não era amparada por evidências suficientes que justificassem a substituição do modelo geocêntrico. Só pra constar: um dos argumentos contrários era a paralaxe estelar: se a Terra se move, deveríamos ver as estrelas mudando de lugar ao longo do ano, fato que hoje sabemos que ocorre, mas que não era possível observar com a tecnologia da época. Portanto, Galileu só foi punido pela insistência em afirmar como verdade científica o que ainda era uma hipótese (fato que em si já mostra uma ingerência indevida da Igreja, concordo). A prova disso é que o próprio criador do modelo heliocêntrico, Copérnico, nunca foi acusado de heresia pela Igreja. Veríssimo não sabe disso? Pode até ser, mas acho muito estranho que ele nunca tenha se interessado por buscar a verdade sobre esses fatos…

Ao mesmo tempo você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.

Nota: o geocentrismo nunca foi um dogma pétreo da Igreja Católica.

Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser preso será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal.

Aqui Veríssimo faz uma comparação entre épocas diferentes. Precisa esclarecer que isso é uma baita desonestidade? Precisa dizer que se hoje a Igreja não tem poder nenhum sobre ninguém, a não ser excomungar e reclamar das decisões do Congresso e do STF que são quase sempre contrárias aos seus ensinamentos?

E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.

Agora Veríssimo se esquece que Galileu era católico e assim permaneceu até sua morte (que foi natural, e não uma execução da Inquisição). Se ele realmente achasse sua condenação injusta, teria abandonado a Igreja. Mas não é isso o que a história nos conta…

Nota: se você se surpreendeu com algo que foi dito no parágrafo acima, é sinal que precisa urgentemente começar a ler. E muito.

O poder dela está por toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.

Note que o fato fictício envolve uma audiência para tratar de “filhos ilegítimos”, algo condenado pela Igreja. Mas “o poder da Igreja” vai condená-lo por isso? É óbvio que não. E o território, realmente é um território da Igreja? Também é óbvio que não: a sentença do juiz, seja qual for, não citará um versículo bíblico, mas uma lei elaborada pelo Estado. O crucifixo não afetará em absolutamente nada a decisão do juiz. E se o juiz resolver ser parcial, certamente a causa não será a presença ou ausência de um crucifixo atrás dele. Aliás, se isso acontecesse, seria praticamente uma prova da existência de forças sobrenaturais.

Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração.

Não, certamente não é um objeto de decoração. E não, também não é uma declaração, assim como a possível presença de uma imagem da deusa Têmis (um símbolo clássico da justiça) na mesa do juiz não é uma declaração de que ele vá seguir os preceitos da mitologia grega. Um crucifixo num tribunal é uma lembrança de um dos julgamentos mais injustos da história.

Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito.

Não, não é uma desobediência, pois não há lei que proíba. Desobediência implica uma ordem contrária, que não existe nesse caso.

Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.

Notem aqui o contorcionismo lógico: o que é condenável, um crucifixo na parede ou uma sentença injusta baseada em preceitos religiosos? Pela lógica de Veríssimo, o crucifixo é que é o problema, como se a presença de um crucifixo criasse um campo sobrenatural à sua volta, que afetasse a capacidade de discernimento de quem está próximo. Ele realmente acha que, existindo algum juiz que profere sentenças injustas baseadas em preceitos religiosos, esse juiz deixará de fazê-las por causa da ausência do crucifixo na sua sala? Caso positivo, pode mandar internar.

É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia.

Interessante ele citar Copérnico, que foi o responsável pela “ressurreição” da teoria heliocêntrica (que foi sugerida pela primeira vez por Filolau, na Grécia antiga), e que também era católico (foi cônego, inclusive), e que também não foi “queimado por heresia”. E por que não foi? Por que a Igreja não sabia de sua obra? Claro que sabia! Toda a Ciência passava (indevidamente, diga-se) pelo crivo da Igreja naquela época! E novamente: Galileu não foi queimado na fogueira da Inquisição, como o texto induzir o leitor a pensar, ainda que não afirme isso diretamente.

Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no poder judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Interessante o artigo ter sido escrito num jornal chamado “Estado de São Paulo“. A clara referência a um santo católico traz uma “lembrança de religião”, não traz? Isso faz com que os textos sejam influenciados pelo catolicismo? É óbvio que não! Mas será que Veríssimo acha que o jornal precisa mudar de nome para que prove a todos que está livre da influência maligna da Igreja Católica? Só se for doido! Mas com o crucifixo é diferente, claro…

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião.

Acho que eu vi um espantalho…

É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa.

Eu vi sim, eu vi um espantalho! Desde quando ostentar um crucifixo na parede é “impor sua religião aos outros”? Desde quando a presença de um crucifixo na parede tira a “liberdade de quem não acredita”? Ah, por favor…

Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial.

Muito interessante ele citar a questão dos preservativos, pois essa é justamente uma prova de que a Igreja Católica não tem poder nenhum nesse país. Se tivesse, talvez a camisinha fosse proibida, ou pelo menos não seria distribuída de graça pelo Governo, usando o dinheiro de todos os contribuintes, inclusive os católicos.

E o aborto? Ele parte da premissa que o aborto só é defendido por religiosos. E onde fica o direito dos ateus que são contra o aborto (conheço vários)? Aliás, provar que um feto humano não é um ser humano requer uma boa dose de contorcionismo lógico pra qualquer pessoa que conheça um mínimo de Biologia. E não vejo nenhum versículo bíblico nessa linha de argumentação.

E fiquei curioso: me diga qual é a igreja neopentecostal que condena os preservativos, por favor, pois eu nunca ouvi falar de nenhuma.

A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso de liberdade.

Declaração de liberdade uma pinóia, pois uma imagem colocada na parede não tira a liberdade de ninguém. A não ser, é claro, que ela seja tão grande que impeça as pessoas de se locomover através da sala.

Conclusão

Será que Veríssimo não percebe que a retirada dos crucifixos é justamente o que ele afirma ser inaceitável: a intromissão do Estado em assuntos religiosos? Será que ele não percebe que sua linha de argumentação vai contra o conceito de Estado laico? E ainda tem a cara de pau de basear a argumentação no conceito que ele quer violar? Fala sério…

Percebemos que se trata de um artigo desonesto que não apresenta nada além de malabarismos lógicos, com o intuito de defender uma arbitrariedade, colocando a religião ateísta acima das outras.

Written by criticareligiosa

01/04/2012 at 0:05

O Brasil não é regido pela Bíblia

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Eu coloquei um comentário contestando o conteúdo dessa matéria, e ele foi solenemente ignorado pelo blogueiro. Talvez seja falta de tempo, não sei, mas pra mim parece um claro indício de que o meu argumento é bom, pois se não fosse ele publicaria e refutaria tudo o que eu disse. Assim, me parece que vale a pena publicar um comentário aqui:

O Brasil não é regido pela Bíblia
(por Alexandre Vidal Porto, publicado em 18 de março de 2012 no jornal O Globo)

Bom, pelo menos o título do texto é uma grande verdade. Vamos aos argumentos.

A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico e assegura liberdade religiosa para todos os cidadãos. As autoridades devem dar garantias ao culto de qualquer religião, sem, no entanto, agir em nome de nenhuma. Em uma democracia, esses princípios são importantes porque preservam o pluralismo da sociedade e protegem o pleno exercício dos direitos individuais.

Até aqui, tudo perfeito. Guardou o conceito de “Estado laico”? Tem certeza? Se hesitou em responder, releia. Releia quantas vezes for necessário pra “internalizar” a definição na sua cabeça. Isso é importante, pois daqui a pouco esse conceito será distorcido, e você não vai querer cair num truque besta desses, né?

Trata-se de uma conquista da civilização ocidental que se encontra ameaçada no Brasil.

Será? É possível… Vejamos o que ele tem a dizer:

Hoje, fé e política parecem manter uma relação espúria, na qual princípios religiosos contaminam de forma indevida o processo legislativo nacional.

Hum… Alguns princípios religiosos contaminam o processo legislativo nacional. Ok, concordo plenamente. Agora: por que “relação espúria”? Por que “de forma indevida”? Há alguma lei que proíba que um princípio religioso se torne lei? Porque se houver, por favor avisem que o homicídio deve ser liberado, pois “não matarás” é um mandamento judaico-cristão. Isso pra citar só um!

Absurdamente, começa-se a achar natural que projetos de lei submetidos à Câmara dos Deputados, ainda que consonantes com os princípios da Constituição e dirigidos ao todo da população — religiosa ou não —, tenham de passar pelo crivo doutrinário das igrejas e fiquem reféns de sua sanção.

Como? Agora as igrejas têm poder de sanção de leis? Caramba, essa eu não sabia. Pensei que só o presidente tivesse esse poder…

E quanto ao “crivo doutrinário”: por que os projetos de lei podem passar pelo “crivo” de todos os “cidadãos laicos” (!), mas não pelo dos religiosos? Bom, não deve ter sido isso o que ele quis dizer, afinal definiu tão bem “Estado laico” no primeiro parágrafo… Ele não cometeria um engano tão grotesco tão rapidamente. Sei lá, talvez o autor seja tão totalitário a ponto de dizer que nenhum cidadão deve ter direito a esse “crivo”… Quem sabe?

Retira-se, assim, de parcela considerável do povo brasileiro, a possibilidade de regular seus direitos constitucionais fora de preceitos bíblicos que não abraçou.

Hã? O fato de um religioso opinar retira o direito de um não-religioso opinar? Que lógica é essa?

Ao mesmo tempo, as lideranças religiosas assumem ares de superioridade moral e alavancam seus interesses políticos baseados em uma ideologia teocrática de exclusão, que desqualifica quem não partilha de sua fé.

As coisas não são bem assim, mas e se fossem, qual seria o problema? O autor do artigo não está justamente “assumindo ares de superioridade moral e alavancando seus interesses políticos baseado em uma ideologia materialista/humanista/qualquer-outro-nome-que-ele-queira-dar de exclusão, que desqualifica os religiosos“? Se isso é errado, então ele acabou de puxar o próprio tapete…

Ninguém é melhor ou mais ético porque tem religião.

De acordo.

Cada um tem o direito de escolher os princípios morais que nortearão sua vida de acordo com a sua consciência. Essa prerrogativa fundamenta os direitos individuais.

Não é bem assim. Você tem todo direito de achar que estuprar não é imoral, por exemplo, mas isso não te dá o direito de “nortear sua vida” de acordo com esse princípio. E se você tentar, o Estado vai te “nortear” pra cadeia rapidinho… Seu direito termina quando o do outro começa.

Foi conquistada a duras penas, em reação, justamente, ao monopólio ideológico e religioso que, diversas vezes na história, impôs-se com resultados terríveis para a humanidade.

Tirando as ressalvas acima, concordo também. Isso não é exclusividade da religião, mas tudo bem.

Ao longo dos séculos, muitas atrocidades foram cometidas em nome da Bíblia e de outros textos religiosos.

De acordo, mas muita calma nessa hora. O fato de muitas atrocidades terem sido feitas em nome de alguma coisa não significa que essa coisa seja ruim. Muitas atrocidades foram cometidas em nome da justiça (execução na cadeira elétrica é uma atrocidade, pelo menos eu acho), e nem por isso a justiça é má em si mesma. Muitas atrocidades foram (e continuam sendo) cometidas em nome do progresso, mas isso não torna o progresso algo ruim.

Não fosse a garantia da pluralidade democrática, o mesmo deputado que vocifera contra cultos de matriz africana ou direitos reprodutivos das mulheres, poderia ter sido queimado na fogueira da Inquisição católica ou morto por apedrejamento como infiel.

Já que vamos apelar pro lado emocional, por que parar por com os exemplos? Que tal: “ou decapitado pela Revolução Francesa, como Lavoisier”. Ou então “morto por uma ditadura comunista dos anos 60 (onde o estado era ateu), como dezenas de milhões de pessoas”. E essa lista poderia ser bastante longa, mas acho que já tá bom.

O Brasil é um país diverso. E quer continuar a sê-lo. Nele, não deve haver espaço para a intolerância. O Congresso não legisla apenas para quem tem religião. Tem de proteger a todos.

Essa sequência até tava indo razoavelmente bem, o problema é que o cara continuou:

Tentar impor uma ideologia religiosa por meio da ação legislativa desfigura nossa democracia.

Concordo plenamente. Devemos obrigar as pessoas a serem católicas ou espíritas ou neopetencostais ou seja lá o que for? Não, pois isso vai contra o conceito de Estado laico.

Mas é isso que os líderes religiosos estão fazendo? Há algum projeto de lei obrigando alguém a seguir determinada religião? Claro que não…

E como eu já disse antes: o homicídio é condenado por qualquer uma dessas ideologias religiosas. Isso “desfigura nossa democracia”? Devemos permiti-lo por esse motivo? É óbvio que não, pois isso não vai contra o conceito de Estado laico.

Os religiosos têm o direito de observar seus princípios, mas não podem impingi-los ao resto da população.

Será que vou ter que repetir a parada do homicídio outra vez?

O Brasil não é regido pela Bíblia. Que os religiosos cultuem o que quiserem, mas que respeitem quem não pensa e não quer viver como eles.

E o Brasil não é regido pelo Sr. Alexandre Vidal Porto. Que ele pense o que quiser, mas que respeite quem não pensa e não quer viver como ele. (adoro esses surtos totalitários do tipo “eu exijo que eles não tenham direito de exigir nada”)

É importante que as autoridades do governo tentem colocar em perspectiva a ação política de grupos religiosos no Brasil.

Notem que o termo “colocar em perspectiva” é propositalmente vago. O que ele quis dizer com isso? Calar? Ignorar? Censurar? Muito compatível com o conceito de Estado laico, citado no primeiro parágrafo, né? Tá vendo por que eu falei pra guardar bem o conceito?

Mas poxa, não deve ter sido isso que o cara quis dizer… Pode ser que eu tenha entendido errado: ele não quer calar os religiosos, e “colocar em perspectiva” significa alguma outra coisa. O problema – pra ele – é que tanto faz: o que ele está propondo é que se trate os religiosos de maneira diferente do resto da população. E tratar diferente é justamente discriminar. Ou seja: o que ele está pedindo é que haja discriminação religiosa, e é justamente esse tipo de atitude que um Estado laico deve coibir. E o cara ainda tem a cara de pau de vir com esse papo de “no Brasil não deve haver espaço pra intolerância”. Ah, faça-me o favor…

O Estado brasileiro é laico e deve comportar-se como tal.

Concordo plenamente, e com base nessa afirmação eu digo: esqueçam o que o Sr. Alexandre Vidal Porto escreveu aí em cima, pois as ideias dele não são compatíveis com um Estado laico.

Em mais de uma instância, minorias sociais têm visto seus direitos individuais virarem moeda de troca.

Moeda de troca? De que esse cara tá falando?!

Tolerar a intolerância pode render votos, mas não é uma forma justa de governar.

De acordo.

Conclusão

O que vimos? Um cara que joga várias afirmações que realmente fazem sentido, mas mistura no meio outras afirmações que não têm o menor cabimento, com o único intuito de retirar liberdades de uma parcela da população. Em nome do “Estado laico”, ele sugere que se pratique discriminação contra os religiosos. Muito coerente…

Sério: se o adjetivo “desonesto” não serve pra qualificar um cara desses, que adjetivo cabe? “Ignorante”? “Distraído”? “Bipolar”? Sinceramente não vejo nenhum melhor.

Written by criticareligiosa

28/03/2012 at 0:21

Desenvolvimento científico na Idade Média

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O intuito do gráfico acima é provar que a Idade Média (também chamada de “Idade das Trevas”) foi um período em que não só não ocorreu avanço científico, mas que retrocedeu todo o avanço já feito para o de mil anos antes. Mas não só isso: a ideia é mostrar que o cristianismo é que foi o responsável por isso. A primeira pergunta que surge é básica, e deveria surgir na cabeça de qualquer adolescente que pensa um mínimo antes de repetir o que vê pela internet:

Esse gráfico é acurado?

Quem tem um mínimo de noção da utilidade de um gráfico sabe que sem números não há gráfico. Aí começam a surgir alguns dos problemas desse gráfico: onde estão esses números? Quem fez esse levantamento, e quais foram as fontes e os critérios utilizados? Como medir objetivamente o que é avanço científico e o que é retrocesso? O modelo atômico de Dalton, por exemplo: foi um avanço ou um retrocesso? Afinal, hoje sabemos que ele estava errado. E como podemos saber que estamos certos hoje? E se amanhã aparecer um outro modelo atômico mais correto, o gráfico mudará? Bom, podemos seguir por esse caminho, pra no final mostrar o problema mais óbvio do gráfico acima: ele não tem base alguma na realidade.

Mas mesmo que esse gráfico tivesse alguma base, ainda há outros pontos importantíssimos a considerar:

  • É só o avanço científico que conta? Ele deve ser buscado a qualquer custo? Conquistar os povos vizinhos, saquear o que tinham e escravizá-los é um custo razoável para manter os avanços científicos? Porque foi isso o que ocorreu na época do Império Romano.
  • Foi o cristianismo que derrubou o Império Romano? Pelo contrário: o cristianismo era mais forte justamente no Império Bizantino, que só caiu mil anos depois. Sem contar que Carlos Magno contou com a ajuda da Igreja para reerguer o império, e provocou uma revolução na educação justamente nessa época.
  • E as invasões bárbaras, não atrapalharam “um pouquinho” não? O autor do gráfico realmente acredita que os avanços científicos tinham condições de evoluir no mesmo ritmo durante as invasões bárbaras? Nessa época, a “Europa secular” estava preocupada com armas para sua própria sobrevivência, não com livros. Se não houvessem os monges católicos, que trabalharam incessantemente nesse período para fazer cópias e mais cópias dos textos antigos durante essa época, tudo teria sido perdido. É de se esperar que o avanço científico tenha diminuído nessa época, e isso não tem nada a ver com quem detinha o poder, mas pelo contexto histórico.
  • A Igreja Católica não “dominou amplamente” esse período, como costumam espalhar por aí. Alguns reis tinham tanta birra com a Igreja que até mesmo nomearam papas de acordo com sua própria vontade. Papas foram expulsos de Roma nessa época, e não foi só uma vez! Portanto, associar um “período de estagnação científica” (que não existiu) ao domínio da Igreja Católica é um completo absurdo.
  • Não havia somente o mundo cristão nessa época. Os muçulmanos tinham seu reino também, e desenvolveram absurdamente a matemática nesse período. Por que isso não aparece no gráfico? Sem contar os avanços feitos no resto do mundo: China, Pérsia, etc.

Conclusão

Esse gráfico é uma fraude completa, feita somente para enganar os mais incautos. Aliás “mais incautos” é até pouco. Só os “muito incautos”, sem capacidade de fazer um mínimo de questionamento, conseguem cair numa conversa dessa.

Referências

Pra não dizerem que sou parcial, vou deixar um link (infelizmente em inglês) de um blog ateu: In Defence of the Middle Ages. O texto inclusive é anti-religioso, a ponto de afirmar que a religião organizada deve ser abolida, mas pelo menos é justo em relação à Idade Média.

Um ótimo livro a respeito é “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental“, escrito por Thomas E. Woods Jr., católico.

Written by criticareligiosa

17/03/2012 at 17:47

Ateísmo militante

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Essa onda de ateísmo militante na internet já tá enchendo o saco. Já que as coisas estão bem paradas por aqui mesmo, vou mudar um pouco o foco aqui pra desmascarar esses caras…

Written by criticareligiosa

12/03/2012 at 18:11

Publicado em Ateísmo

Sola fide

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Conceito

A Doutrina da sola fide ou “fé somente” afirma que é exclusivamente baseado na Graça de Deus, através somente da fé daquele que crê, por causa da obra redentora do Senhor Jesus Cristo, que são perdoadas as transgressões da Lei de Deus. (wikipédia)

Argumentação

Essa talvez seja a maior diferença entre as diversas denominações cristãs. O conceito por trás de toda essa discussão é a justificação. A Reforma Protestante criou o conceito da justificação apenas pela fé, ao contrário do que dizia a doutrina católica na época (e até hoje), que além da fé seriam necessárias boas obras. A premissa mais comum da Sola fide é a seguinte:

A justificação é somente por intermédio da fé.

Não há divergência em relação à necessidade da fé, pois todas as maiores denominações cristãs concordam que a fé é necessária para a justificação. O problema aqui, portanto, é em relação às boas obras: seriam elas necessárias para a justificação ou totalmente irrelevantes? Dessa forma, como discutir a premissa acima daria margem a desvios do assunto que causa a divergência, acho mais produtivo basear a crítica em uma outra premissa, que apesar de normalmente não ser encontrada de forma explícita, é o motivo central de toda a divergência:

  1. As boas obras são irrelevantes para a justificação.

Argumentos

Para analisar a premissa acima, devemos excluir a Tradição Católica da discussão, afinal, os reformadores não a reconhecem como fonte de doutrina. Portanto, utilizarei apenas argumentos bíblicos para analisar a questão. Mesmo sabendo que há argumentos para ambos os lados no Antigo Testamento, vou me ater somente ao Novo Testamento, que apesar de não desfazer a antiga aliança, faz uma nova aliança. Na Bíblia encontraremos argumentos a favor e contra a interpretação:

A favor

  • João 3,16: Jesus afirma que todo aquele crê terá a vida eterna.
  • Atos dos Apóstolos 16,30-31: quando o carcereiro pergunta a Paulo o que é necessário para a salvação, a resposta é “crê no Senhor Jesus e serás salvo”.
  • Romanos 3,20-28: aqui, Paulo deixa claro que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.
  • Romanos 10,9-10: Paulo afirma claramente que quem tiver fé será salvo, e que é crendo que se chega à salvação.
  • Romanos 11, 6: Paulo afirma que a salvação não é pelas obras, mas pela graça.
  • Gálatas 2,16: Paulo deixa bem claro que ninguém se justifica pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, e que nenhum homem será justificado pela prática da lei.
  • Gálatas 3,11: aqui também fica bem claro que ninguém é justificado pela lei, mas pela fé.
  • Gálatas 3,23-26: aqui se afirma que a lei é o “professor” que nos leva à fé em Cristo, mas que depois de ter a fé, esse “professor” não é mais necessário.
  • Efésios 2,8-9: a salvação não provém dos nossos méritos nem das nossas obras.
  • I João 5,13: João afirma que quem crê no Filho de Deus tem a vida eterna.

Contra

  • Mateus 6,1-6: as boas obras receberão recompensas (versículos 4 e 6). Textos parecidos aparecem mais à frente, nos versículos 16 e 18
  • Mateus 7,16-20: na forma de parábola, Jesus afirma que as árvores que não dão bons frutos (analogia às boas obras) serão cortadas e lançadas ao fogo.
  • Mateus 10,42: as boas obras terão recompensas.
  • Mateus 25,14-30 (parábola dos talentos): manda jogar o “servo inútil” nas trevas porque ele não fez nada com os talentos que lhe foram confiados.
  • Mateus 25,31-46 (descrição do juízo final): Jesus deixa bem claro que os que não fizeram boas obras durante a vida serão mandados para o castigo eterno.
  • Lucas 19,12-27 (parábola das minas): semelhante à parábola dos talentos (provavelmente a mesma, contada de maneira ligeiramente diferente): aquele que não multiplicou as minas perdeu até a única mina que possuía.
  • Romanos 2, 5-6: Paulo afirma claramente que no dia do juízo final cada um será cobrado segundo suas obras.
  • I Coríntios 13: todo o capítulo exalta o valor a caridade, o que já seria um indício de sua importância, mas o versículo 2 não deixa dúvida alguma, ao deixar bastante explícito que a fé sozinha não basta. O último versículo também é bem claro ao colocar a caridade acima da fé.
  • I Timóteo 2,15: a salvação se dá através da fé, da caridade e da santidade.
  • I Timóteo 4,8: a piedade tem a promessa da vida presente e da futura.
  • Tiago 2,14-26: aqui, Tiago deixa bastante claro que a fé não basta, mas deve ser acompanhada de boas obras.
  • I João 3,17-18: no primeiro versículo, João afirma que quem não ajudar um irmão com necessidade não tem o amor de Deus, e no segundo versículo pede que não amemos somente com palavras, mas também com atos.

Crítica

Aqui colocarei trechos próximos dos trechos citados (dentro do mesmo contexto, portanto), que possam dar a entender que o trecho isolado não tem o sentido que aparentemente foi mostrado acima:

Trechos com argumentos a favor

  • João 3,16: apesar de falar que todo aquele crê terá a vida eterna, nos versículos seguintes Jesus condena as más obras (versículos 19 e 20) e exalta as boas obras (versículo 21).
  • Atos dos Apóstolos: não vejo contra-argumentos próximos a essa parte do livro. Porém, ao analisarmos o livro dos Atos dos Apóstolos como um todo, vemos que ele é uma narrativa da primeira geração de cristãos, e sua intenção principal e registrar fatos, e não descrever ou embasar doutrinas. Dessa forma, confiar cegamente em uma descrição como sendo o embasamento de uma doutrina me parece um ato imprudente, pois como o autor não tinha a intenção de embasar a doutrina, pode ter deixado de registrar outras partes da conversa, que foram suprimidas por não acrescentar nada ao contexto descritivo desejado.
  • Romanos: como apresenta trechos aparentemente contraditórios, essa epístola é analisada de forma mais detalhada, mais abaixo.
  • Gálatas: no capítulo 2, Paulo afirma que se se a justiça pudesse ser obtida pela lei, então Cristo teria morrido em vão (versículo 21). Esse trecho parece ser justamente o argumento central de Paulo: a fé é absolutamente necessária à justificação, e a lei sozinha simplesmente não é suficiente. Em outras palavras: quem segue a lei mas não tem fé não está justificado. Dessa forma, me parece claro que a preocupação de Paulo nessa epístola é em afirmar que a fé é indispensável, mas não negar a lei, ou afirmar que esta tornou-se dispensável. É também interessante notar que o capítulo 3 cita dois trechos do Antigo Testamento que reafirmam a importância da lei: Deuteronômio 27,26 no versículo 10 e Levítico 18,5 no versículo 12. Isso também dá a entender que a ênfase de Paulo está em lembrar a necessidade da fé, mas nunca negar a necessidade de seguir a lei. Olhando isoladamente os versículos 23 a 26 do capítulo 3, realmente parece que Paulo pretende afirmar que lei foi revogada, mas se olharmos todo o contexto, em especial o conteúdo dos capítulos 2 e 3, vemos que não é exatamente isso que está sendo dito.
  • Efésios 2,8-9: os primeiros versículos deste capítulo mostram que o pecado leva à morte. O final do capítulo seguinte (3) também é claro ao afirmar que a caridade consolida a fé.
  • I João 5: logo em seguida, no versículo 16, João afirma claramente que há pecados que levam à morte. Daí se deduz que a fé sozinha não é suficiente para a salvação. Os últimos versículos do capítulo 3 afirmam que é pela observância aos mandamentos que permanecemos em Deus.

Trechos com argumentos contrários

  • Não encontrei contra-argumentos próximos a nenhum dos trechos citados, à exceção da Epístola aos Romanos, comentada abaixo.

Textos aparentemente contraditórios

  • Romanos: como aparentemente temos argumentos contraditórios, temos que analisar a epístola mais profundamente, de forma a tentar entender a intenção de Paulo de escrevê-la. Ao fazer essa análise, percebemos que a epístola foi feita para criticar a situação dos que dizem ter fé mas que não cumprem a lei. Portanto, fica claro que a intenção não foi afirmar que a lei é dispensável. Pelo contrário: percebe-se que a intenção foi enfatizar que quem diz ter fé deve agir conforme a lei. Além dos trechos já citados acima como argumentos contra a Sola fide, ainda há outros pontos da epístola que confirmam essa intenção:
    • 2,5-8: este trecho diz que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras.
    • 3,31: este versículo é bastante claro quando diz que de modo algum a lei é destruída pela fé, mas pelo contrário, a fé dá força à lei.
    • 6,1-2: este trecho mostra que devemos continuar observando a lei, mesmo já tendo fé. Os versículos 12 e 13, mais à frente, reafirmam que o pecado deve ser evitado.
    • 6,15: este versículo me parece o mais claro de todos,  pois mostra que quando Paulo falou que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei, queria na verdade dizer que o homem que tem fé já não precisa se preocupar em cumprir a lei, porque isso já é uma consequência natural. Ou seja: o homem de fé não está dispensado de cumprir a lei. Pelo contrário: ao decidir se tornar um servo da justiça, também se comprometeu em manter-se afastado do pecado.
    • 8,13: aqui fica claro que quem vive segundo a carne há de morrer, o que mostra que a lei não está abolida.
    • 9,32: esse até parece ser um versículo a favor da Sola fide, mas Paulo é claro ao afirmar que Israel não conseguiu a justificação porque buscava só obras e não a fé. Ou seja: o versículo mostra que obras sem fé não são suficientes para a justificação, mas de maneira alguma pretende dizer que as obras são desnecessárias.
    • 12 a 14: estes capítulos são inteiramente dedicados a citar obras, algumas que devem ser feitas e outras que devem ser evitadas pelos cristãos.

Conclusão

Vejo nos trechos que supostamente contêm argumentos a favor da Sola fide, textos que exaltam a fé, mas em momento nenhum vejo uma declaração explícita de que as boas obras são desnecessárias. Em todos os pontos onde essa interpretação pode ser dada, vemos que há trechos do mesmo livro que desfazem essa possibilidade de interpretação.

Outro ponto interessante é que esse conceito (de irrelevância das obras) praticamente inexiste nos Evangelhos. O único trecho aparentemente favorável a essa interpretação (João 3,16) é esclarecido ainda no mesmo capítulo. Mais um ponto importantíssimo é o levantado na epístola de Tiago: a fé sozinha não significa muita coisa, afinal os demônios também têm fé (Tg 2,19).

Outra linha de argumentação poderia ser a observância da lei: a fé não basta porque a graça pode ser perdida pela não-observância da lei. Acho que esse é um ponto pouco controverso (apesar de contrariar claramente a premissa da Sola Fide), então não vou abordá-lo. Na verdade, meu texto foi um pouco “contaminado” por essa ideia, mas acredito que isso não invalide a argumentação acima.

Possíveis objeções

A lista que fiz não é exaustiva, e certamente há muito mais trechos relevantes que os indicados. Se você se sentiu que seu lado foi “prejudicado” porque este ou aquele trecho não estão aqui, basta utilizar os comentários. Só peço que faça a mesma análise criteriosa que eu fiz (e que me tomou um bocado de tempo), pois se eu começar a perder tempo com textos que não acrescentam nada, vou acabar cansando de analisar os que realmente merecem alguma atenção especial.

Aproveito para me comprometer em a alterar o artigo, acrescentando os pontos que forem levantados, mas já adianto que não vou colocar trechos só para fazer volume, mas somente aqueles que ofereçam algum impacto na discussão de forma relevante. E lembre-se que tenho um tempo limitado para manter esse blog, e as eventuais alterações podem demorar um pouco.

Written by criticareligiosa

30/12/2011 at 14:41

Publicado em Protestantismo

Pausa

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É momento de outras prioridades, então vou ter que fazer uma pausa por aqui… Assim que der eu volto, e se nesse meio tempo conseguir redigir um ou outro texto, posto aqui…

Written by criticareligiosa

15/08/2011 at 0:00

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Onipotência

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Conceito

Onipotência designa a propriedade de um ser capaz de fazer tudo

(wikipédia)

Argumentação

Que eu saiba, não há uma argumentação, esse é apenas um fato defendido pelo cristianismo e outras formas de teísmo.

É importante apenas fazer alguns esclarecimentos antes de começar a crítica:

Potência

“Omni” significa “tudo”, não há muito problema com esse termo, mas é importante saber o que significa “potência”. Para um ato existir, é necessário haver uma potência, ou seja: é necessário que seja possível fazer algo para que esse algo seja feito.

Pra começar, um exemplo bem simples: suponha que eu estou fazendo uma prova de múltipla escolha com 4 opções: A, B, C e D. Antes de responder a uma questão, eu tenho 4 potências: escolher A, B, C ou D. O ato será a “materialização” da potência. Se eu decidir pela resposta A, eu a marcarei no cartão de respostas, e as outras potências já não estarão mais disponíveis. Depois desse ato, minha lista de potências muda: agora a única potência é a de anular a questão, marcando mais de uma opção no cartão.

Caso ainda não tenha ficado muito claro, vou tentar outro exemplo: eu sou um jogador de futebol esperando para bater um pênalti. Minhas potências são muitas. As mais óbvias: chutar colocado em um dos cantos, chutar colocado no ângulo, chutar forte no meio, etc. Mas ainda há outras opções não tão óbvias assim: bater com “cavadinha”, rolar para um colega chutar, bater com o pé de apoio, bater de calcanhar, etc. E além dessas, há uma infinidade de opções que, por não estarem diretamente ligadas ao futebol, nem chegamos a considerar: dar um tapa na careca do juiz, começar a dançar a “Macarena”, tirar a roupa e sair correndo, etc. São coisas muito improváveis, mas possíveis, e portanto são potências. Brincadeiras à parte, espero que tenha ficado claro: antes de decidir por um ato, geralmente temos um grande número de potências, mas somente uma delas se transformará em ato naquele momento.

Potências impossíveis

É bom deixar claro que não se espera que um ser onipotente consiga fazer coisas logicamente impossíveis. Por exemplo: criar um cubo esférico. Essa é uma tarefa impossível até mesmo para um ser onipotente, pois trata-se de um objeto cuja existência é impossível, e portanto até mesmo a potência é impossível.

Crítica

Paradoxo da pedra

Essa é uma crítica comum e bastante conhecida, que pode existir dessa forma: “se há algum ser onipotente, ele deve ser capaz de criar uma pedra tão grande e pesada que nem mesmo ele seria capaz de erguê-la”.

Esse argumento parece ser bastante convincente: se a resposta for “sim”, então o fato de ele não conseguir erguer a pedra faz com que ele não seja onipotente. Se a resposta for “não”, então o fato de ele não poder criar tal pedra também faz com que ele não seja onipotente.

A meu ver, o melhor objeto de estudo agora seria essa pedra: é possível que tal pedra exista? Vamos analisar:

O que faz uma pedra ser pesada?

Seu peso, claro. Mas qual é a definição de peso? Segundo a wikipédia, “o peso de um objeto é a força gravitacional sofrida por este objeto em virtude da atração gravitacional nele exercida por um outro corpo massivo”. Notem que o peso não é uma característica absoluta. Pelo contrário, o termo “sofrida” mostra que um objeto só tem peso em relação a outro: sem a presença de “um outro corpo massivo”, o peso simplesmente não existe. E é fácil perceber isso ao ver os vídeos de viagens espaciais: a partir de uma certa distância da Terra, o peso (força gravitacional exercida pela Terra) é tão insignificante que os astronautas flutuam sem “cair”. Erguer qualquer objeto nesse ambiente de gravidade mínima é uma tarefa facílima.

Ou seja: o peso de um objeto qualquer depende da “posição espacial” desse objeto. Um objeto qualquer que esteja na Lua é 6 vezes mais leve que o mesmo objeto teria se estivesse na Terra. Dessa forma, se pensarmos numa “pedra tão grande e pesada”, precisamos de uma referência também. Alguém poderia não conseguir mover uma pedra de 100 kg aqui na Terra, mas se estivesse na Lua, conseguiria, pois ela teria aproximadamente 16 kg. Em um astro menor, pesaria ainda menos. A uma grande distância de qualquer planeta, muito menos ainda.

Dessa forma, percebe-se que nem para os humanos é possível que haja uma pedra tão pesada a ponto que não possamos movê-la: basta que essa pedra esteja em algum local onde não haja atração gravitacional significativa, que será fácil movê-la.

A meu ver, o paradoxo da pedra já se complica irremediavelmente nesse ponto: como “pesada” não pode ser uma característica absoluta de uma pedra, o objeto proposto já fica inviável: em um universo totalmente vazio, seria simplesmente impossível existir uma pedra com peso, pois não haveria nenhum “corpo massivo” para exercer atração gravitacional sobre ela, dando-lhe peso. Dessa forma, na tentativa de fazer o argumento “voltar a funcionar”, vou adicionar esse “corpo massivo”, e utilizar a Terra como referência.

O que é necessário para erguer uma pedra?

Ok, definimos a Terra como sendo o corpo massivo que dá peso à nossa suposta pedra. Mas o que é necessário para que alguém consiga erguer essa pedra, distanciando-a da Terra? A resposta é simples: força. Novamente, vamos à definição da wikipédia: “a força é aquilo que pode alterar (num mesmo referencial assumido inercial) o estado de repouso ou de movimento de um corpo”. Portanto, para uma pedra de peso P, eu precisaria de uma força F para erguê-la.

Em outras palavras: o argumento quer encontrar uma pedra com peso tal que seja necessário haver uma força F que seja maior que a força de um ser onipotente. Pense bem: isso faz algum sentido? Qual é a quantidade de força que se espera de um ser onipotente? Infinita, claro, ou ele não seria onipotente! Portanto, o argumento quer achar uma pedra que exija uma força maior que o infinito para ser movida. Isso é claramente um absurdo.

“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”

Outro problema com a força, é que há várias maneiras de diminuir o esforço de uma tarefa: para mover objetos pesados, podemos usar alavancas ou roldanas, diminuindo o esforço necessário para tal. Assim, mesmo para um ser não-onipotente (com força finita), nunca será impossível mover um objeto, por mais pesado que seja. Arquimedes, que viveu antes de Cristo já fazia essa argumentação: “dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”.

Petição de princípio

Um outro problema grave do Paradoxo da Pedra é o raciocínio circular, que foi mostrado acima: o argumento parte do princípio que o ser onipotente na verdade não é onipotente, pois tem uma força finita. Ora, partir do pressuposto da inexistência da onipotência para demonstrar a inexistência da onipotência é claramente uma petição de princípio.

Conclusão

Não vejo nenhuma objeção que seja um impeditivo para a existência de um ser onipotente, e portanto não vejo motivos para afirmar que a onipotência seja impossível.

Written by criticareligiosa

07/08/2011 at 0:00

Publicado em Cristianismo