Crítica Religiosa

Críticas a temas relacionados a qualquer visão religiosa

Archive for julho 2011

Cientificismo

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Conceito

O conceito pode variar um pouco, mas a ideia básica é dizer que só se pode acreditar no que é cientificamente provado. Deixando bem claro: cientificismo não é simplesmente “acreditar na Ciência”, mas “acreditar apenas na Ciência”.

Argumentação

Como o conceito pode variar, apresentarei alguns conceitos diferentes que encontrei por aí. Como achei vários conceitos, mas nada na forma de argumentação (premissa e conclusões), os conceitos serão tratados como premissas:

Argumentação 1

  1. Somente os conhecimentos cientificamente estabelecidos são verdadeiros.

Crítica

Aqui a refutação é direta, não dá muito trabalho: para que a premissa seja considerada um conhecimento verdadeiro, é necessário que haja uma prova científica que a comprove. Como a premissa é uma afirmação filosófica, ela nunca poderá ser “cientificamente estabelecida”, e portanto ela se auto-refuta.

Argumentação 2

  1. Tudo é explicável pela Ciência.

Crítica

A crítica é semelhante à anterior, mas há uma pequena diferença: a premissa não é categórica como a anterior, mas apenas apresenta uma forma de fé na Ciência. Aqui não se restringe o conhecimento a somente o que a Ciência explica, ou seja: mesmo que a premissa não seja explicada pela Ciência hoje, o cientificista tem fé que um dia a Ciência será capaz de explicá-la.

Logicamente, pelo fato de a premissa ser filosófica, o a Ciência nunca conseguirá explicá-la. Nesse caso, é necessário ao menos que se apresente um método através do qual seja possível testar a premissa empiricamente (!). Caso não seja apresentado tal método, fica impossível encontrar um apoio para a premissa, que passa a ser uma questão de fé cega na Ciência.

Argumentação 3

  1. Tudo o que não pertença ao domínio da Ciência não existe e não pode ser objeto de estudo.

Crítica

A crítica pode seguir a mesma linha das anteriores, pois a premissa claramente não pertence ao domínio da Ciência, mas como aqui a coisa muda um pouco de figura, vale a pena apresentar mais uma crítica:

Negar a existência de verdades filosóficas já é um grande problema para se realizar qualquer tipo de discussão, mas negar a Matemática e a Lógica me parece um convite à insanidade. Simplesmente não vejo como defender essa visão, até porque a defesa teria que vir na forma de um “objeto de estudo da Ciência”.

Argumentação 4

  1. Os conhecimentos científicos são verdades absolutas e últimas, e as provas científicas são não menos que absolutas e por tal definitivas.

Crítica

Quem faz esse tipo de afirmação simplesmente não conhece o método científico. Qualquer um que conheça a história da Ciência, sabe que ela é uma sucessão de erros até o “acerto” atual, e que mesmo as “verdades” científicas atuais só sobreviverão até aparecerem novas “verdades” que as provem falsas ou incompletas.

Para não parecer que sou contra a Ciência, e que eu estou dizendo que a Ciência só produz erros, vou apresentar um exemplo bem conhecido: o modelo atômico. Não vou explicar o exemplo porque o artigo da wikipédia já dá uma ótima noção de como esse modelo mudou através do tempo. Mas o que se observa ao ler o artigo, é que houve várias visões equivocadas de quais seriam os elementos mínimos da matéria. A própria palavra “átomo” significa “indivisível”, o que mostra o quão errado estava o modelo atômico de Dalton, por exemplo.

E é aqui que a argumentação falha de forma irreparável: se “os conhecimentos científicos são verdades absolutas e últimas”, então por dedução temos que dizer que os átomos eram realmente indivisíveis até o momento em que se provou que o átomo é divisível, e que somente nesse instante eles se dividiram. Obviamente esse é um absurdo.

E o que falar, então, das teorias incompatíveis? A Relatividade Geral e a Mecânica Quântica são ambas amplamente aceitas, mas têm alguns pontos de discordância, onde apenas uma das duas pode estar certa. A realidade seria mutante nesses casos? Isso é insanidade, claro.

Outras críticas

Analiso aqui outros argumentos que costumam aparecer nesse tipo de assunto:

“O conhecimento científico só aumenta, e portanto um dia ele explicará tudo.”

Isso é uma ampliação indevida. O desmatamento também só aumenta, mas isso não significa necessariamente que um dia o desmatamento será de 100%. A população mundial só aumenta, mas isso não significa que ela será infinita. Resumindo: o fato de algo vir aumentando sempre não implica na negação de um limite.

Outro ponto muito importante é que a Ciência nunca é capaz de garantir uma prova com 100% de certeza. Por mais que uma teoria descreva a realidade com perfeição, sempre é possível que com o avanço da tecnologia surja algum dado empírico que antes não era detectável, e que pode tornar a teoria incompleta ou até mesmo inválida. Foi o que aconteceu com a Física Newtoniana, que sobreviveu incólume por dois séculos, até ser “deposta” pela Relatividade Geral. A prova absoluta (100% de certeza) só é possível em disciplinas como Lógica e Matemática.

Outro problema aparece quando falamos da História: como podemos provar empiricamente que algo como a Revolução Francesa realmente aconteceu? Isso é totalmente impossível, pois não podemos repetir o evento em laboratório. A única alternativa que nos resta é classificar os registros por grau de confiabilidade, confrontar os fatos descritos e julgar qual é a explicação que parece mais verossímil. Não há como a Ciência “se intrometer” nesses casos.

Conclusão

Disso tudo, se conclui que o Cientificismo não passa de uma fé cega na Ciência, sem indício nenhum de que seja verdadeiro. Pelo contrário: encontramos fortes indícios de que trata-se de uma crença totalmente infundada.

Tenhamos fé na Ciência, mas que essa fé não seja cega!

Nota: quem assiste ao seriado “The Big Bang Theory” percebe que o personagem Sheldon Cooper é uma caricatura do cientificista.

Written by criticareligiosa

29/07/2011 at 0:00

Publicado em Ateísmo

E se o relativismo moral fosse seguido à risca?

with one comment

Taí uma hipótese que acredito que muito poucos relativistas morais pararam pra imaginar: Como seria o mundo se o relativismo moral fosse aceito universalmente?

Em um mundo 100% relativista, não poderia haver leis. Quer dizer… Até poderia, mas seria injusto. Quer dizer… Injusto não pode ser, pois também não existe justiça. Ok, então poderia haver leis sim. O problema é que o juiz não teria o dever moral de segui-las, portanto elas seriam totalmente inúteis. Ou seja: se elas são inúteis, então pra que criá-las? Assim, os deputados e senadores são totalmente dispensáveis (acho até que tô gostando dessa ideia).

Mas peraí! O próprio papel de juiz seria inútil, pois eu não teria o dever de te levar à justiça pra te prender. Bastaria que eu mesmo te levasse à força pra cadeia! Então, por que diabos alguém se disporia a estudar por 5 anos, depois fazer uma prova da OAB, depois um concurso de juiz, pra no fim das contas ficar em pé de igualdade com qualquer outro que nunca estudou nada?

Aliás, pra que estudar qualquer coisa? Eu tenho todo o direito de exercer medicina se eu quiser! Eu sempre tive o sonho de ser neuro-cirurgião, e vou começar hoje mesmo!

Mas peraí de novo! Se eu ficar doente, vou ter que procurar um médico… Como saber se ele realmente sabe de alguma coisa sobre medicina? Ah! O diploma! Mas peraí outra vez! A galera do CRM tem direito de dar diploma pra qualquer um, seja ele qualificado ou não. Ih…

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Relativismo moral

Written by criticareligiosa

22/07/2011 at 0:00

Publicado em Agnosticismo, Ateísmo, E se...

Sola scriptura

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Conceito

Sola scriptura é uma frase em latim, cujo significado é “somente a Escritura”.

(wikipédia)

Argumentação

Não há muito o que inventar:

  1. A Bíblia é a única fonte de doutrina cristã (*).

(*) Por “doutrina cristã”, entenda-se “tudo o que um cristão precisa saber para se salvar”, ou “tudo o que Deus queria que você soubesse”, ou algo parecido. Está mais ou menos esclarecido nos comentários, mas qualquer problema, é só perguntar.

Crítica

A Sola Scriptura é auto-contraditória

Logo de início já temos um problema insolúvel: a Sola Scriptura é, em si, uma doutrina cristã. O problema é que a Sola Scriptura não aparece em lugar algum da Bíblia. Daí se conclui que a Sola Scriptura não pode ser fonte de doutrina cristã. Ou seja: como a Bíblia não ensina a Sola Scriptura, então a Sola Scriptura nega a si mesma como fonte de doutrina cristã, sendo auto-contraditória, e portanto inválida.

Só isso já bastaria para dar um veredito, mas os problemas não acabam aqui.

A Sola Scriptura leva ao relativismo bíblico

Se a Bíblia é a única fonte de doutrina, então ela é a única coisa em que um cristão deve confiar. Daqui surge outro problema sério: quem já leu pelo menos alguns trechos da Bíblia sabe que sua interpretação não é fácil, e que é muito comum que duas pessoas interpretem o mesmo trecho de formas diferentes, às vezes até contraditórias. Então, como saber qual das interpretações é a correta? Não posso recorrer à explicação de outra pessoa, pois isso feriria a Sola Scriptura: essa outra pessoa não pode ser fonte de doutrina cristã. Daí se concluiria que não há apenas uma verdade, pois qualquer interpretação da Bíblia seria correta, mesmo quando houver duas interpretações contraditórias de um mesmo trecho. Isso acaba levando a uma forma de relativismo bíblico, o que seria um grande absurdo para qualquer doutrina séria.

Portanto, se a Bíblia é realmente a verdade revelada, então tem que haver uma única interpretação dela, ou haverá várias “verdades” diferentes. Dessa forma, para que se tenha uma doutrina coerente, tem que haver uma autoridade externa à Bíblia, que diga qual é a maneira correta de se interpretar a Bíblia. Essa autoridade externa seria uma fonte de doutrina, o que contraria a Sola Scriptura.

A Bíblia é subordinada à Tradição Católica

O cânon bíblico é uma fonte de doutrina. Porém, a Bíblia não contém seu próprio cânon, que foi definido pela Tradição Católica. Portanto, para que aceitemos a Bíblia como infalível, devemos aceitar também que há pelo menos uma outra fonte de doutrina: o concílio que definiu o cânon bíblico. Essa aceitação contraria a Sola Scriptura.

As primeiras gerações de cristãos não tinham base doutrinária

Se a Sola Scriptura está correta, então os primeiros cristãos viviam sem nenhuma base doutrinária, pois o cânon bíblico só foi definido no século IV. Isso inclui os próprios apóstolos.

A própria Bíblia nega a Sola Scriptura

O último versículo do evangelho de João afirma claramente que há inúmeras verdades históricas que não estão escritas na Bíblia.

No quarto capítulo da epístola aos Filipenses, São Paulo pede claramente que pratiquem o que aprenderam, receberam, ouviram e observaram. Se a Sola Scriptura fosse uma preocupação de São Paulo, certamente apareceria nesse trecho. É interessante notar que além de recomendar a observação de meios não escritos de transmissão da doutrina, simplesmente nem se menciona a exigência de seguir algo que esteja escrito.

Outra visão

Há uma outra visão, menos radical que a apresentada, chamada de “Prima Scriptura” (primeiro a Escritura), que afirma que a Bíblia é apenas a mais importante fonte de doutrina cristã. Ou seja: por essa visão, a Bíblia não seria a única fonte de doutrina cristã, mas está acima de todas as outras. Essa visão evita a contradição implícita, pois não nega que haja doutrina cristã fora da Bíblia.

Porém, ainda temos um grave problema aqui: como explicado anteriormente, o cânon bíblico não existiria sem a Tradição Católica, e portanto a Bíblia está necessariamente subordinada à Tradição, não podendo ser superior a ela. Mesmo os outros cânones existentes estariam necessariamente subordinados à autoridade da pessoa ou grupo que o definiu, e portanto podem ser vistos como uma autoridade secundária.

Conclusão

A Sola Scriptura traz consigo tantas contradições graves, que se torna impossível tratá-la como uma doutrina confiável.

Written by criticareligiosa

21/07/2011 at 0:00

Publicado em Protestantismo

Argumento Cosmológico

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Conceito

O Argumento Cosmológico ou Argumento da Primeira Causa é um argumento filosófico para a existência de Deus que explica que tudo tem uma causa, que deve ter havido uma primeira causa e que essa primeira causa é em si sem causa.

(allaboutphilosophy.org)

Argumentação

Há variações na forma de apresentar essa argumentação, mas a estrutura que mais tenho visto ultimamente é a Kalam:

  1. Tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência.
  2. O universo começou a existir.
  3. Portanto, o universo tem uma causa da sua existência.

Os teístas utilizam a conclusão 3 para justificar a existência de Deus, que seria essa causa.

Crítica

A argumentação parece fazer sentido, mas para ter certeza, vamos analisar todos os pontos levantados:

Tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência

Apesar de não poder ser provada empiricamente, a premissa 1 é bastante plausível, pois no universo que conhecemos, aparentemente nada acontece sem uma causa. A própria Ciência tem a causalidade em seus alicerces, e desmoronaria se a causalidade fosse provada falsa. Partindo desse princípio, acho difícil refutar a premissa 1.

O universo começou a existir

Aqui precisaremos do apoio da Ciência.

Hoje, a teoria mais aceita para explicar a origem do universo é a teoria do Big Bang. Essa teoria diz que o universo teve, sim, um início, e que ele ocorreu há cerca de 13 bilhões de anos, e portanto, ele apóia plenamente a premissa 2.

Outro ponto que apóia a premissa 2 é a segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia de um sistema fechado só pode aumentar com o passar do tempo. Como (até onde sabemos) não é possível haver entropia negativa, o universo necessariamente tem que ter tido um início.

Portanto, o universo tem uma causa da sua existência

A conclusão parece seguir perfeitamente as premissas, e não vejo como refutá-la.

Ok, mas que causa seria essa?

Chegamos à conclusão que o universo precisa de uma causa para ser explicado, mas que causa seria essa? Alguns diriam que é Deus, outros diriam que o universo existe em dentro de um multiverso eterno, ou que ele é uma 3-brana dentro de um espaço com maior número de dimensões, etc.

O problema dessas respostas é que elas quase sempre são meras especulações, pois não temos como testar empiricamente o que há além do nosso universo. Até que a Ciência consiga romper essa barreira, só me parece ser possível debater esse tema no campo da filosofia.

O debate certamente não acaba aqui, e no futuro pretendo analisar algumas das respostas a essa pergunta em posts separados, pois em alguns casos o assunto pode ficar bastante complexo.

Problema 1 – quem causou a “primeira causa”?

Essa pergunta, apesar de bastante comum, não faz o menor sentido. Se uma causa é “primeira”, então não pode haver uma causa para ela. Assim como não pode haver um presidente do Brasil antes do primeiro presidente do Brasil, nem um pontapé anterior ao pontapé inicial, não pode haver uma causa anterior à primeira causa.

Um exemplo pra deixar as coisas mais claras: o Evolucionismo diz que toda a vida da Terra teve origem na primeira vida, que foi a primeira célula replicante, formada na “sopa primordial”. Faz sentido perguntar que forma de vida deu origem à primeira vida? Claro que não, pois se houve alguma forma de vida anterior à primeira, então ela teria sido a primeira, e não a outra. Mas cuidado aqui pra não confundir as coisas: isso não significa que a primeira vida não tenha uma causa. O que estou dizendo é que essa causa não pode ser chamada de vida.

Portanto, esse problema nem chega a ser um problema de fato.

Problema 2 – a causalidade existe fora do tempo?

Esse é um problema que nunca havia visto ninguém levantar, mas que pode jogar todo o argumento por terra: causalidade pressupõe tempo, mas o tempo não é eterno. Vamos ver se isso é realmente um problema, ou mesmo se faz algum sentido:

Causalidade pressupõe tempo

Um exemplo: se alguém afirmasse que a causa da extinção dos dinossauros foi a 2ª Guerra Mundial, qual seria a sua reação? Logicamente responderia: “como pode um evento que ocorreu no século XX ter causado um outro evento que ocorreu há mais de 60 milhões de anos?”. O mesmo questionamento deve ser feito para aqueles (e olha que não são poucos) que afirmam que a causa do Cristianismo é a utilização deste para dominação social. Como? Se o Cristianismo surgiu no século I e só conseguiu um mínimo de paz com a classe dominadora depois do Édito de Milão, no ano 313, como pode ter sido criado com a finalidade de dominar?

Ou seja: fica óbvio que uma causa não pode ser posterior ao seu efeito. Dessa maneira, fica claro que a causalidade depende, sim, do tempo.

O tempo não é eterno

A teoria do Big Bang diz que não foi só a matéria que surgiu há cerca de 13 bilhões de anos, mas o próprio espaço e o tempo. Aqui a coisa começa a ficar muito abstrata, e precisamos deixar um pouco de lado as nossas “certezas” pra poder encarar o problema de forma correta. Ora, se para ter causa eu preciso que o tempo exista, e se o tempo também teve um início, então não faz sentido perguntar o que causou o tempo, pois se o tempo não existia “antes” do início do tempo, então também não poderia haver uma causa (note o “antes” entre aspas, pois se não existia tempo, tampouco pode existir o conceito de “antes”).

Dessa forma, a existência de uma causa anterior ao universo fica absurda, ou no mínimo sem base empírica. Para justificar uma causa para o universo, teríamos que afirmar que há uma outra linha de tempo externa ao universo, que apesar de estranha, não é absurda. O problema é que simplesmente não há fatos observáveis que sustentem essa hipótese, ou seja: continuamos no campo da especulação.

Causa simultânea ao efeito

Uma alternativa para esse problema seria considerar que a causa foi simultânea ao efeito, e essa não é uma ideia absurda. Pelo contrário: filosoficamente, a ideia de causa simultânea ao efeito é muito bem justificada, e depois de entendida, até intuitiva. E ela é uma saída válida para esse problema: no “tempo zero” (momento exato do início do universo), ocorreu uma causa cujo efeito simultâneo foi o surgimento do universo.

É uma justificativa aceitável, mas que, a meu ver, ainda não permite fugir do campo da especulação filosófica: que causa foi essa?

Conclusão

A meu ver, devido à impossibilidade empírica de se saber qual foi a causa do surgimento do nosso universo, qualquer explicação que se dê para a causa do universo é mera especulação.

A pergunta que fica é: que causa foi essa? Há algumas possibilidades de resposta, e voltarei a tratar do assunto em um momento oportuno.

Written by criticareligiosa

20/07/2011 at 0:00

Publicado em Teísmo

Relativismo moral

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Conceito

O relativismo moral é a visão de que as afirmações morais ou éticas, que variam de pessoa para pessoa, são todas igualmente válidas e que nenhuma opinião sobre o que é “certo e errado” é melhor do que qualquer outra. O relativismo moral é uma forma mais ampla e mais pessoalmente aplicada de outros tipos de pensamento relativista, tal como o relativismo cultural. Estas são todas baseadas na ideia de que não exista um padrão definitivo do bem ou do mal, por isso cada decisão sobre o que é certo e errado acaba sendo um puro produto das preferências e ambiente de uma pessoa. Não existe um padrão definitivo de moralidade, de acordo com o relativismo moral, e nenhuma declaração ou posição pode ser considerada absolutamente “certa ou errada”, “melhor ou pior”.

(allaboutphilosophy.org)

Argumentação

A argumentação pode ser mostrada de forma simples, como uma única premissa, conforme abaixo:

  1. Não há valores (certo e errado) absolutos.

Concordo que apresentar o relativismo moral como uma única premissa é algo muito simplório, e que essa premissa, na verdade, é uma conclusão que segue de alguma outra premissa. Porém, seja qual for a “premissa dessa premissa”, ela será irrelevante para o propósito desse post, pois pretendo analisar apenas a premissa acima.

Crítica

Segundo o relativismo moral, todas as ideias morais que temos são apenas opiniões, sem base na realidade. Portanto, a situação fica parecida com a do relativismo “genérico”: como não há uma realidade na qual possamos nos apoiar, se eu discordo de você em algum assunto relativo à moral, nunca poderemos saber qual dos dois está certo, pois esse conceito (certo e errado) não existe. Dessa forma, qualquer discussão sobre moral é inócua, pois ainda que cheguemos a um consenso, esse consenso continuará sendo uma mera opinião.

Partindo dessa linha de raciocínio, somos tentados a concluir que nenhuma atitude, por mais que nos pareça errada, é passível de crítica. O problema é que esse raciocínio tem um erro sutil: ele pressupõe a existência de uma moral absoluta. Ora, se não há certo ou errado, como posso dizer que é errado fazer críticas? Portanto, se vejo algo que me parece errado, como um soldado nazista fuzilando um judeu, continuo tendo o direito de criticar. O problema aqui é que não posso exigir que a outra pessoa atenda às minhas críticas. Na verdade, como não há certo ou errado, a outra pessoa não tem o dever moral de analisar, ou mesmo de ouvir minhas críticas. Isso leva à impossibilidade de diálogo, e consequentemente à intolerância.

A outra opção que tenho quando me confronto com algo que me parece errado é aceitar e me calar, pois esses conceitos morais são só meus. Aqui surge um problema: se meus conceitos pessoais de certo e errado não significam nada na realidade (fora da minha pessoa), então por que mantê-los, mesmo para mim mesmo? Que utilidade eles têm? Por que me obrigo a segui-los?

Nesse ponto, já deve ter ficado claro que dentro do relativismo moral os direitos são totais, e inexistem deveres. A própria noção de justiça cai por terra, pois se não há certo ou errado, nada pode ser considerado justo ou injusto. Qualquer discussão sobre assuntos morais é simplesmente irrelevante.

E é aqui que a coisa se complica de forma irremediável: se não há deveres, então não tenho obrigação nem mesmo de agir racionalmente. Absolutamente qualquer coisa que eu pense ou faça é justificável, por mais irracional que possa parecer aos outros ou até a mim mesmo. A consequência, então, é que, na prática, o relativismo moral acaba nos levando às mesmas consequências do relativismo “genérico”: se não tenho compromisso com a razão, qual é a utilidade de buscar a verdade absoluta? Se não é errado  acreditar em algo que claramente seja falso, como 2+2=5, então a própria razão é inútil, e a verdade absoluta é totalmente irrelevante.

Conclusão

Assim como o relativismo “genérico”, o relativismo moral torna a razão totalmente inútil, impedindo qualquer discussão séria.

E por fim: se o relativismo moral é verdade, então o fato de ele ser verdade é totalmente irrelevante, pois ele mesmo me exime da obrigação de acreditar nele.

Veja também

Relativismo

Written by criticareligiosa

19/07/2011 at 0:00

Publicado em Agnosticismo, Ateísmo

Relativismo

with 3 comments

Conceito

(…) Assim podemos concluir que o Relativismo é um termo filosófico que se baseia na relatividade do conhecimento e repudia qualquer verdade ou valor absoluto. Todo ponto de vista é válido.

Na filosofia moderna o relativismo por vezes assume a denominação de “relativismo cético”, relação feita com sua crença na impossibilidade do pensador ou qualquer ser humano chegar a uma verdade objetiva, muito menos absoluta. (…)

(wikipedia)

Frequentemente vejo confusão com esse termo, portanto é importante frisar aqui: o relativismo a que esse post se refire não significa afirmar a existência de verdades relativas, mas negar a existência de verdades absolutas.

Argumentação

A argumentação na verdade é bem simples, com apenas uma premissa, sem necessidade de conclusões:

  1. Não há verdade absoluta

Crítica

Já de início, temos um problema: definir se a premissa pretende ser absoluta ou não.

O relativismo é absoluto

Se partirmos do pressuposto que a premissa é absoluta, então o próprio pressuposto derruba automaticamente a premissa, afinal, se a premissa é absoluta, então há pelo menos uma verdade absoluta: a própria premissa. Nesse caso, a argumentação cai numa redução ao absurdo, provando ser falsa.

O relativismo é relativo

Assim, só nos resta pressupor que a premissa não é absoluta, mas relativa. Nesse caso, o problema que aparece é outro: o próprio conceito de verdade muda. Se nada que consideramos verdadeiro é absolutamente verdadeiro, então qualquer verdade pessoal é uma mera opinião, ou seja: verdade e opinião se transformam na mesma coisa. E esse caminho nos leva a outro absurdo: se dois indivíduos têm opiniões divergentes sobre um assunto, por definição ambas devem ser consideradas verdades. A consequência é que não adianta travar uma discussão para debater o tema, com o intuito de tentar descobrir qual das opiniões é a verdade absoluta, pois esse conceito simplesmente não existe. Ainda que um dos indivíduos consiga convencer o outro, o resultado ainda será uma mera opinião. Dessa maneira, qualquer discussão sobre qualquer tema é totalmente irrelevante, pois nunca levará a um conhecimento real.

Ainda que não houvesse absurdo

Suponha que queiramos ignorar os argumentos acima, e simplesmente suponhamos que o relativismo pode ser verdadeiro. Vejamos um exemplo prático: suponha que dois indivíduos, ambos relativistas, divirjam sobre a afirmação “o número 15 é um número primo”. Ainda que um deles saiba que 5 x 3 = 15, terá que aceitar a verdade do outro, afinal, essa é só sua opinião, e outros têm todo direito de ter sua própria opinião sem serem criticados.

Conclusão

Se o relativismo é verdadeiro, e pretende ser absoluto, então ele é automaticamente falso.

Se o relativismo é relativo, então ele é apenas uma opinião, sem valor algum em um debate sério.

Ou seja: na melhor das hipóteses, o relativismo é irrelevante.

Veja também

Relativismo moral

Written by criticareligiosa

18/07/2011 at 0:00

Publicado em Agnosticismo, Ateísmo