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Onipotência

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Conceito

Onipotência designa a propriedade de um ser capaz de fazer tudo

(wikipédia)

Argumentação

Que eu saiba, não há uma argumentação, esse é apenas um fato defendido pelo cristianismo e outras formas de teísmo.

É importante apenas fazer alguns esclarecimentos antes de começar a crítica:

Potência

“Omni” significa “tudo”, não há muito problema com esse termo, mas é importante saber o que significa “potência”. Para um ato existir, é necessário haver uma potência, ou seja: é necessário que seja possível fazer algo para que esse algo seja feito.

Pra começar, um exemplo bem simples: suponha que eu estou fazendo uma prova de múltipla escolha com 4 opções: A, B, C e D. Antes de responder a uma questão, eu tenho 4 potências: escolher A, B, C ou D. O ato será a “materialização” da potência. Se eu decidir pela resposta A, eu a marcarei no cartão de respostas, e as outras potências já não estarão mais disponíveis. Depois desse ato, minha lista de potências muda: agora a única potência é a de anular a questão, marcando mais de uma opção no cartão.

Caso ainda não tenha ficado muito claro, vou tentar outro exemplo: eu sou um jogador de futebol esperando para bater um pênalti. Minhas potências são muitas. As mais óbvias: chutar colocado em um dos cantos, chutar colocado no ângulo, chutar forte no meio, etc. Mas ainda há outras opções não tão óbvias assim: bater com “cavadinha”, rolar para um colega chutar, bater com o pé de apoio, bater de calcanhar, etc. E além dessas, há uma infinidade de opções que, por não estarem diretamente ligadas ao futebol, nem chegamos a considerar: dar um tapa na careca do juiz, começar a dançar a “Macarena”, tirar a roupa e sair correndo, etc. São coisas muito improváveis, mas possíveis, e portanto são potências. Brincadeiras à parte, espero que tenha ficado claro: antes de decidir por um ato, geralmente temos um grande número de potências, mas somente uma delas se transformará em ato naquele momento.

Potências impossíveis

É bom deixar claro que não se espera que um ser onipotente consiga fazer coisas logicamente impossíveis. Por exemplo: criar um cubo esférico. Essa é uma tarefa impossível até mesmo para um ser onipotente, pois trata-se de um objeto cuja existência é impossível, e portanto até mesmo a potência é impossível.

Crítica

Paradoxo da pedra

Essa é uma crítica comum e bastante conhecida, que pode existir dessa forma: “se há algum ser onipotente, ele deve ser capaz de criar uma pedra tão grande e pesada que nem mesmo ele seria capaz de erguê-la”.

Esse argumento parece ser bastante convincente: se a resposta for “sim”, então o fato de ele não conseguir erguer a pedra faz com que ele não seja onipotente. Se a resposta for “não”, então o fato de ele não poder criar tal pedra também faz com que ele não seja onipotente.

A meu ver, o melhor objeto de estudo agora seria essa pedra: é possível que tal pedra exista? Vamos analisar:

O que faz uma pedra ser pesada?

Seu peso, claro. Mas qual é a definição de peso? Segundo a wikipédia, “o peso de um objeto é a força gravitacional sofrida por este objeto em virtude da atração gravitacional nele exercida por um outro corpo massivo”. Notem que o peso não é uma característica absoluta. Pelo contrário, o termo “sofrida” mostra que um objeto só tem peso em relação a outro: sem a presença de “um outro corpo massivo”, o peso simplesmente não existe. E é fácil perceber isso ao ver os vídeos de viagens espaciais: a partir de uma certa distância da Terra, o peso (força gravitacional exercida pela Terra) é tão insignificante que os astronautas flutuam sem “cair”. Erguer qualquer objeto nesse ambiente de gravidade mínima é uma tarefa facílima.

Ou seja: o peso de um objeto qualquer depende da “posição espacial” desse objeto. Um objeto qualquer que esteja na Lua é 6 vezes mais leve que o mesmo objeto teria se estivesse na Terra. Dessa forma, se pensarmos numa “pedra tão grande e pesada”, precisamos de uma referência também. Alguém poderia não conseguir mover uma pedra de 100 kg aqui na Terra, mas se estivesse na Lua, conseguiria, pois ela teria aproximadamente 16 kg. Em um astro menor, pesaria ainda menos. A uma grande distância de qualquer planeta, muito menos ainda.

Dessa forma, percebe-se que nem para os humanos é possível que haja uma pedra tão pesada a ponto que não possamos movê-la: basta que essa pedra esteja em algum local onde não haja atração gravitacional significativa, que será fácil movê-la.

A meu ver, o paradoxo da pedra já se complica irremediavelmente nesse ponto: como “pesada” não pode ser uma característica absoluta de uma pedra, o objeto proposto já fica inviável: em um universo totalmente vazio, seria simplesmente impossível existir uma pedra com peso, pois não haveria nenhum “corpo massivo” para exercer atração gravitacional sobre ela, dando-lhe peso. Dessa forma, na tentativa de fazer o argumento “voltar a funcionar”, vou adicionar esse “corpo massivo”, e utilizar a Terra como referência.

O que é necessário para erguer uma pedra?

Ok, definimos a Terra como sendo o corpo massivo que dá peso à nossa suposta pedra. Mas o que é necessário para que alguém consiga erguer essa pedra, distanciando-a da Terra? A resposta é simples: força. Novamente, vamos à definição da wikipédia: “a força é aquilo que pode alterar (num mesmo referencial assumido inercial) o estado de repouso ou de movimento de um corpo”. Portanto, para uma pedra de peso P, eu precisaria de uma força F para erguê-la.

Em outras palavras: o argumento quer encontrar uma pedra com peso tal que seja necessário haver uma força F que seja maior que a força de um ser onipotente. Pense bem: isso faz algum sentido? Qual é a quantidade de força que se espera de um ser onipotente? Infinita, claro, ou ele não seria onipotente! Portanto, o argumento quer achar uma pedra que exija uma força maior que o infinito para ser movida. Isso é claramente um absurdo.

“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”

Outro problema com a força, é que há várias maneiras de diminuir o esforço de uma tarefa: para mover objetos pesados, podemos usar alavancas ou roldanas, diminuindo o esforço necessário para tal. Assim, mesmo para um ser não-onipotente (com força finita), nunca será impossível mover um objeto, por mais pesado que seja. Arquimedes, que viveu antes de Cristo já fazia essa argumentação: “dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”.

Petição de princípio

Um outro problema grave do Paradoxo da Pedra é o raciocínio circular, que foi mostrado acima: o argumento parte do princípio que o ser onipotente na verdade não é onipotente, pois tem uma força finita. Ora, partir do pressuposto da inexistência da onipotência para demonstrar a inexistência da onipotência é claramente uma petição de princípio.

Conclusão

Não vejo nenhuma objeção que seja um impeditivo para a existência de um ser onipotente, e portanto não vejo motivos para afirmar que a onipotência seja impossível.

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Written by criticareligiosa

07/08/2011 às 0:00

Publicado em Cristianismo

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