Crítica Religiosa

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Sola fide

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Conceito

A Doutrina da sola fide ou “fé somente” afirma que é exclusivamente baseado na Graça de Deus, através somente da fé daquele que crê, por causa da obra redentora do Senhor Jesus Cristo, que são perdoadas as transgressões da Lei de Deus. (wikipédia)

Argumentação

Essa talvez seja a maior diferença entre as diversas denominações cristãs. O conceito por trás de toda essa discussão é a justificação. A Reforma Protestante criou o conceito da justificação apenas pela fé, ao contrário do que dizia a doutrina católica na época (e até hoje), que além da fé seriam necessárias boas obras. A premissa mais comum da Sola fide é a seguinte:

A justificação é somente por intermédio da fé.

Não há divergência em relação à necessidade da fé, pois todas as maiores denominações cristãs concordam que a fé é necessária para a justificação. O problema aqui, portanto, é em relação às boas obras: seriam elas necessárias para a justificação ou totalmente irrelevantes? Dessa forma, como discutir a premissa acima daria margem a desvios do assunto que causa a divergência, acho mais produtivo basear a crítica em uma outra premissa, que apesar de normalmente não ser encontrada de forma explícita, é o motivo central de toda a divergência:

  1. As boas obras são irrelevantes para a justificação.

Argumentos

Para analisar a premissa acima, devemos excluir a Tradição Católica da discussão, afinal, os reformadores não a reconhecem como fonte de doutrina. Portanto, utilizarei apenas argumentos bíblicos para analisar a questão. Mesmo sabendo que há argumentos para ambos os lados no Antigo Testamento, vou me ater somente ao Novo Testamento, que apesar de não desfazer a antiga aliança, faz uma nova aliança. Na Bíblia encontraremos argumentos a favor e contra a interpretação:

A favor

  • João 3,16: Jesus afirma que todo aquele crê terá a vida eterna.
  • Atos dos Apóstolos 16,30-31: quando o carcereiro pergunta a Paulo o que é necessário para a salvação, a resposta é “crê no Senhor Jesus e serás salvo”.
  • Romanos 3,20-28: aqui, Paulo deixa claro que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.
  • Romanos 10,9-10: Paulo afirma claramente que quem tiver fé será salvo, e que é crendo que se chega à salvação.
  • Romanos 11, 6: Paulo afirma que a salvação não é pelas obras, mas pela graça.
  • Gálatas 2,16: Paulo deixa bem claro que ninguém se justifica pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, e que nenhum homem será justificado pela prática da lei.
  • Gálatas 3,11: aqui também fica bem claro que ninguém é justificado pela lei, mas pela fé.
  • Gálatas 3,23-26: aqui se afirma que a lei é o “professor” que nos leva à fé em Cristo, mas que depois de ter a fé, esse “professor” não é mais necessário.
  • Efésios 2,8-9: a salvação não provém dos nossos méritos nem das nossas obras.
  • I João 5,13: João afirma que quem crê no Filho de Deus tem a vida eterna.

Contra

  • Mateus 6,1-6: as boas obras receberão recompensas (versículos 4 e 6). Textos parecidos aparecem mais à frente, nos versículos 16 e 18
  • Mateus 7,16-20: na forma de parábola, Jesus afirma que as árvores que não dão bons frutos (analogia às boas obras) serão cortadas e lançadas ao fogo.
  • Mateus 10,42: as boas obras terão recompensas.
  • Mateus 25,14-30 (parábola dos talentos): manda jogar o “servo inútil” nas trevas porque ele não fez nada com os talentos que lhe foram confiados.
  • Mateus 25,31-46 (descrição do juízo final): Jesus deixa bem claro que os que não fizeram boas obras durante a vida serão mandados para o castigo eterno.
  • Lucas 19,12-27 (parábola das minas): semelhante à parábola dos talentos (provavelmente a mesma, contada de maneira ligeiramente diferente): aquele que não multiplicou as minas perdeu até a única mina que possuía.
  • Romanos 2, 5-6: Paulo afirma claramente que no dia do juízo final cada um será cobrado segundo suas obras.
  • I Coríntios 13: todo o capítulo exalta o valor a caridade, o que já seria um indício de sua importância, mas o versículo 2 não deixa dúvida alguma, ao deixar bastante explícito que a fé sozinha não basta. O último versículo também é bem claro ao colocar a caridade acima da fé.
  • I Timóteo 2,15: a salvação se dá através da fé, da caridade e da santidade.
  • I Timóteo 4,8: a piedade tem a promessa da vida presente e da futura.
  • Tiago 2,14-26: aqui, Tiago deixa bastante claro que a fé não basta, mas deve ser acompanhada de boas obras.
  • I João 3,17-18: no primeiro versículo, João afirma que quem não ajudar um irmão com necessidade não tem o amor de Deus, e no segundo versículo pede que não amemos somente com palavras, mas também com atos.

Crítica

Aqui colocarei trechos próximos dos trechos citados (dentro do mesmo contexto, portanto), que possam dar a entender que o trecho isolado não tem o sentido que aparentemente foi mostrado acima:

Trechos com argumentos a favor

  • João 3,16: apesar de falar que todo aquele crê terá a vida eterna, nos versículos seguintes Jesus condena as más obras (versículos 19 e 20) e exalta as boas obras (versículo 21).
  • Atos dos Apóstolos: não vejo contra-argumentos próximos a essa parte do livro. Porém, ao analisarmos o livro dos Atos dos Apóstolos como um todo, vemos que ele é uma narrativa da primeira geração de cristãos, e sua intenção principal e registrar fatos, e não descrever ou embasar doutrinas. Dessa forma, confiar cegamente em uma descrição como sendo o embasamento de uma doutrina me parece um ato imprudente, pois como o autor não tinha a intenção de embasar a doutrina, pode ter deixado de registrar outras partes da conversa, que foram suprimidas por não acrescentar nada ao contexto descritivo desejado.
  • Romanos: como apresenta trechos aparentemente contraditórios, essa epístola é analisada de forma mais detalhada, mais abaixo.
  • Gálatas: no capítulo 2, Paulo afirma que se se a justiça pudesse ser obtida pela lei, então Cristo teria morrido em vão (versículo 21). Esse trecho parece ser justamente o argumento central de Paulo: a fé é absolutamente necessária à justificação, e a lei sozinha simplesmente não é suficiente. Em outras palavras: quem segue a lei mas não tem fé não está justificado. Dessa forma, me parece claro que a preocupação de Paulo nessa epístola é em afirmar que a fé é indispensável, mas não negar a lei, ou afirmar que esta tornou-se dispensável. É também interessante notar que o capítulo 3 cita dois trechos do Antigo Testamento que reafirmam a importância da lei: Deuteronômio 27,26 no versículo 10 e Levítico 18,5 no versículo 12. Isso também dá a entender que a ênfase de Paulo está em lembrar a necessidade da fé, mas nunca negar a necessidade de seguir a lei. Olhando isoladamente os versículos 23 a 26 do capítulo 3, realmente parece que Paulo pretende afirmar que lei foi revogada, mas se olharmos todo o contexto, em especial o conteúdo dos capítulos 2 e 3, vemos que não é exatamente isso que está sendo dito.
  • Efésios 2,8-9: os primeiros versículos deste capítulo mostram que o pecado leva à morte. O final do capítulo seguinte (3) também é claro ao afirmar que a caridade consolida a fé.
  • I João 5: logo em seguida, no versículo 16, João afirma claramente que há pecados que levam à morte. Daí se deduz que a fé sozinha não é suficiente para a salvação. Os últimos versículos do capítulo 3 afirmam que é pela observância aos mandamentos que permanecemos em Deus.

Trechos com argumentos contrários

  • Não encontrei contra-argumentos próximos a nenhum dos trechos citados, à exceção da Epístola aos Romanos, comentada abaixo.

Textos aparentemente contraditórios

  • Romanos: como aparentemente temos argumentos contraditórios, temos que analisar a epístola mais profundamente, de forma a tentar entender a intenção de Paulo de escrevê-la. Ao fazer essa análise, percebemos que a epístola foi feita para criticar a situação dos que dizem ter fé mas que não cumprem a lei. Portanto, fica claro que a intenção não foi afirmar que a lei é dispensável. Pelo contrário: percebe-se que a intenção foi enfatizar que quem diz ter fé deve agir conforme a lei. Além dos trechos já citados acima como argumentos contra a Sola fide, ainda há outros pontos da epístola que confirmam essa intenção:
    • 2,5-8: este trecho diz que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras.
    • 3,31: este versículo é bastante claro quando diz que de modo algum a lei é destruída pela fé, mas pelo contrário, a fé dá força à lei.
    • 6,1-2: este trecho mostra que devemos continuar observando a lei, mesmo já tendo fé. Os versículos 12 e 13, mais à frente, reafirmam que o pecado deve ser evitado.
    • 6,15: este versículo me parece o mais claro de todos,  pois mostra que quando Paulo falou que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei, queria na verdade dizer que o homem que tem fé já não precisa se preocupar em cumprir a lei, porque isso já é uma consequência natural. Ou seja: o homem de fé não está dispensado de cumprir a lei. Pelo contrário: ao decidir se tornar um servo da justiça, também se comprometeu em manter-se afastado do pecado.
    • 8,13: aqui fica claro que quem vive segundo a carne há de morrer, o que mostra que a lei não está abolida.
    • 9,32: esse até parece ser um versículo a favor da Sola fide, mas Paulo é claro ao afirmar que Israel não conseguiu a justificação porque buscava só obras e não a fé. Ou seja: o versículo mostra que obras sem fé não são suficientes para a justificação, mas de maneira alguma pretende dizer que as obras são desnecessárias.
    • 12 a 14: estes capítulos são inteiramente dedicados a citar obras, algumas que devem ser feitas e outras que devem ser evitadas pelos cristãos.

Conclusão

Vejo nos trechos que supostamente contêm argumentos a favor da Sola fide, textos que exaltam a fé, mas em momento nenhum vejo uma declaração explícita de que as boas obras são desnecessárias. Em todos os pontos onde essa interpretação pode ser dada, vemos que há trechos do mesmo livro que desfazem essa possibilidade de interpretação.

Outro ponto interessante é que esse conceito (de irrelevância das obras) praticamente inexiste nos Evangelhos. O único trecho aparentemente favorável a essa interpretação (João 3,16) é esclarecido ainda no mesmo capítulo. Mais um ponto importantíssimo é o levantado na epístola de Tiago: a fé sozinha não significa muita coisa, afinal os demônios também têm fé (Tg 2,19).

Outra linha de argumentação poderia ser a observância da lei: a fé não basta porque a graça pode ser perdida pela não-observância da lei. Acho que esse é um ponto pouco controverso (apesar de contrariar claramente a premissa da Sola Fide), então não vou abordá-lo. Na verdade, meu texto foi um pouco “contaminado” por essa ideia, mas acredito que isso não invalide a argumentação acima.

Possíveis objeções

A lista que fiz não é exaustiva, e certamente há muito mais trechos relevantes que os indicados. Se você se sentiu que seu lado foi “prejudicado” porque este ou aquele trecho não estão aqui, basta utilizar os comentários. Só peço que faça a mesma análise criteriosa que eu fiz (e que me tomou um bocado de tempo), pois se eu começar a perder tempo com textos que não acrescentam nada, vou acabar cansando de analisar os que realmente merecem alguma atenção especial.

Aproveito para me comprometer em a alterar o artigo, acrescentando os pontos que forem levantados, mas já adianto que não vou colocar trechos só para fazer volume, mas somente aqueles que ofereçam algum impacto na discussão de forma relevante. E lembre-se que tenho um tempo limitado para manter esse blog, e as eventuais alterações podem demorar um pouco.

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Written by criticareligiosa

30/12/2011 às 14:41

Publicado em Protestantismo

6 Respostas

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  1. Ótimo artigo!

    marcosmarinho33

    13/02/2012 at 15:20

  2. […] Fonte Classificar isto: Compartilhe:Share on TumblrEmailPrintGostar disto:GostoBe the first to like this . […]

  3. Até onde sei, a justificação começa pela fé – ou seja, ao confiar em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, a pessoa é então limpa de seus pecados e declarada justa diante de Deus. As obras seriam então a manutenção desta justificação, OK?

    Em diversos trechos da Bíblia vemos a admoestação de que os crentes devem manter a boa conduta e obras – mas isto é geralmente colocado diante dos crentes, e não de incrédulos. E mesmo os católicos concordariam que obras aqui são apenas dos crentes.

    Acho que o problema aqui é do calvinismo, e não do protestantismo em geral (eu mesmo sou arminiano molinista).

    Paulo resume as duas coisas em uma frase: “operai vossa salvação com temor e tremor – pois é Deus quem vos opera tanto o querer quanto o realizar”.

    P.S.: quando Tiago fala da fé dos demônios, creio que não é no mesmo sentido de “fidelidade a Jesus” que os crentes devem ter.

    Acho que é isso…

    Sobre a Lei Mosaica, merece uma relida…

    credulo

    03/03/2012 at 2:30

    • Até onde sei, a justificação começa pela fé – ou seja, ao confiar em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, a pessoa é então limpa de seus pecados e declarada justa diante de Deus. As obras seriam então a manutenção desta justificação, OK?

      Em diversos trechos da Bíblia vemos a admoestação de que os crentes devem manter a boa conduta e obras – mas isto é geralmente colocado diante dos crentes, e não de incrédulos. E mesmo os católicos concordariam que obras aqui são apenas dos crentes.

      Acho que o problema aqui é do calvinismo, e não do protestantismo em geral (eu mesmo sou arminiano molinista).

      Paulo resume as duas coisas em uma frase: “operai vossa salvação com temor e tremor – pois é Deus quem vos opera tanto o querer quanto o realizar”.

      P.S.: quando Tiago fala da fé dos demônios, creio que não é no mesmo sentido de “fidelidade a Jesus” que os crentes devem ter.

      Credulo, a proposta do artigo não é ser uma espécie de tratado sobre a justificação. Eu até poderia responder a cada um dos seus comentários, mas isso seria fugir da premissa principal (essa, sim, a proposta do artigo), que é: “As boas obras são irrelevantes para a justificação.” Por experiência própria, prefiro me ater somente ao assunto abordado, pois uma vez que permitimos esses desvios, o assunto pode ir pra qualquer lado e normalmente, nesses casos, a discussão vai pro brejo… Não estou dizendo que é o seu caso (pelo contrário, percebe-se que você está querendo uma discussão séria), mas muita gente faz isso justamente para tumultuar e impedir uma discussão honesta. Espero que me compreenda.

      Porém, vou abrir uma exceção num ponto específico pra explicar uma decisão minha: eu prefiro abarcar dentro de “protestantismo” toda e qualquer doutrina que não seja do catolicismo. E por que? Por que de um lado temos o catolicismo, com uma doutrina única, e portanto fácil de identificar, pois está toda escrita em um documento (o Catecismo da Igreja Católica) que tem que ser seguido por todos os católicos. Do outro, temos inúmeras denominações protestantes, que nem sempre têm uma doutrina formal, e que muitas vezes são uma mera “salada” de ideias pinçadas de uma ou outra igreja protestante. Nesse caso específico, temos como o exemplo a “sola fide”, que é predominantemente calvinista, mas que pode ser utilizada por outras denominações diferentes. Por causa disso, prefiro colocar os argumentos protestantes num “balaio” geral, pois pode servir para várias denominações. Ou seja: meu intuito aqui não é defender qualquer posição religiosa, mas apenas posições filosóficas e/ou teológicas, independente de quem as afirma. Portanto, se o problema é do calvinismo ou de quem quer que seja, pra mim isso não é relevante.

      Sobre a Lei Mosaica, merece uma relida…

      Você está certíssimo. Eu confundi os assuntos, sei lá por que. Vou editar o texto e tirar os trechos que se referem à Lei.

      Valeu pela contribuição!

      criticareligiosa

      03/03/2012 at 11:18

      • Sem problemas – a bem da verdade, eu estava apontando erros da cosmovisão calvinista, que advoga este ‘sola fide’ (devido a uma negação quase que insana do livre arbítrio e a uma limitação da misericórdia divina).

        De todo modo, caso te interesse, basta pesquisar sobre a Confissão de Fé de Westminster – ela é usada como documento oficial em muitas igrejas protestantes calvinistas, como a Presbiteriana.

        Tem outros catecismos interessantes de igrejas calvinistas, que talvez te interessem como material. Como eu estudo isso desde muito tempo (dado o teor do meu próprio blog), talvez te sejam úteis para esta ala mais elevada da teologia reformada/protestente/calvinista/what-the-frak.

        No mais, bem-vindo de volta!

        credulo

        03/03/2012 at 15:18

  4. Muito bom seu artigo!
    Já estou numa crise de consciência há um bom tempo. Lendo a bíblia e vendo o ensino de Cristo acima dos de seus seguidores, a salvação pela fé é insustentável.
    Realmente, Lutero tinha razão quando disse que a salvação pela fé era o artigo pelo qual a igreja se mantinha ou caía. Neste caso, se todo mundo se der ao trabalho de ler a bíblia, a fé protestante cai.
    Cristo sempre condicionou a salvação às boas ações.
    Um dia sei que terei que fazer parte da fé Católica Romana.

    Valeu!

    Carlos L

    28/12/2013 at 23:36


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