Crítica Religiosa

Críticas a temas relacionados a qualquer visão religiosa

O Brasil não é regido pela Bíblia

with one comment

Eu coloquei um comentário contestando o conteúdo dessa matéria, e ele foi solenemente ignorado pelo blogueiro. Talvez seja falta de tempo, não sei, mas pra mim parece um claro indício de que o meu argumento é bom, pois se não fosse ele publicaria e refutaria tudo o que eu disse. Assim, me parece que vale a pena publicar um comentário aqui:

O Brasil não é regido pela Bíblia
(por Alexandre Vidal Porto, publicado em 18 de março de 2012 no jornal O Globo)

Bom, pelo menos o título do texto é uma grande verdade. Vamos aos argumentos.

A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico e assegura liberdade religiosa para todos os cidadãos. As autoridades devem dar garantias ao culto de qualquer religião, sem, no entanto, agir em nome de nenhuma. Em uma democracia, esses princípios são importantes porque preservam o pluralismo da sociedade e protegem o pleno exercício dos direitos individuais.

Até aqui, tudo perfeito. Guardou o conceito de “Estado laico”? Tem certeza? Se hesitou em responder, releia. Releia quantas vezes for necessário pra “internalizar” a definição na sua cabeça. Isso é importante, pois daqui a pouco esse conceito será distorcido, e você não vai querer cair num truque besta desses, né?

Trata-se de uma conquista da civilização ocidental que se encontra ameaçada no Brasil.

Será? É possível… Vejamos o que ele tem a dizer:

Hoje, fé e política parecem manter uma relação espúria, na qual princípios religiosos contaminam de forma indevida o processo legislativo nacional.

Hum… Alguns princípios religiosos contaminam o processo legislativo nacional. Ok, concordo plenamente. Agora: por que “relação espúria”? Por que “de forma indevida”? Há alguma lei que proíba que um princípio religioso se torne lei? Porque se houver, por favor avisem que o homicídio deve ser liberado, pois “não matarás” é um mandamento judaico-cristão. Isso pra citar só um!

Absurdamente, começa-se a achar natural que projetos de lei submetidos à Câmara dos Deputados, ainda que consonantes com os princípios da Constituição e dirigidos ao todo da população — religiosa ou não —, tenham de passar pelo crivo doutrinário das igrejas e fiquem reféns de sua sanção.

Como? Agora as igrejas têm poder de sanção de leis? Caramba, essa eu não sabia. Pensei que só o presidente tivesse esse poder…

E quanto ao “crivo doutrinário”: por que os projetos de lei podem passar pelo “crivo” de todos os “cidadãos laicos” (!), mas não pelo dos religiosos? Bom, não deve ter sido isso o que ele quis dizer, afinal definiu tão bem “Estado laico” no primeiro parágrafo… Ele não cometeria um engano tão grotesco tão rapidamente. Sei lá, talvez o autor seja tão totalitário a ponto de dizer que nenhum cidadão deve ter direito a esse “crivo”… Quem sabe?

Retira-se, assim, de parcela considerável do povo brasileiro, a possibilidade de regular seus direitos constitucionais fora de preceitos bíblicos que não abraçou.

Hã? O fato de um religioso opinar retira o direito de um não-religioso opinar? Que lógica é essa?

Ao mesmo tempo, as lideranças religiosas assumem ares de superioridade moral e alavancam seus interesses políticos baseados em uma ideologia teocrática de exclusão, que desqualifica quem não partilha de sua fé.

As coisas não são bem assim, mas e se fossem, qual seria o problema? O autor do artigo não está justamente “assumindo ares de superioridade moral e alavancando seus interesses políticos baseado em uma ideologia materialista/humanista/qualquer-outro-nome-que-ele-queira-dar de exclusão, que desqualifica os religiosos“? Se isso é errado, então ele acabou de puxar o próprio tapete…

Ninguém é melhor ou mais ético porque tem religião.

De acordo.

Cada um tem o direito de escolher os princípios morais que nortearão sua vida de acordo com a sua consciência. Essa prerrogativa fundamenta os direitos individuais.

Não é bem assim. Você tem todo direito de achar que estuprar não é imoral, por exemplo, mas isso não te dá o direito de “nortear sua vida” de acordo com esse princípio. E se você tentar, o Estado vai te “nortear” pra cadeia rapidinho… Seu direito termina quando o do outro começa.

Foi conquistada a duras penas, em reação, justamente, ao monopólio ideológico e religioso que, diversas vezes na história, impôs-se com resultados terríveis para a humanidade.

Tirando as ressalvas acima, concordo também. Isso não é exclusividade da religião, mas tudo bem.

Ao longo dos séculos, muitas atrocidades foram cometidas em nome da Bíblia e de outros textos religiosos.

De acordo, mas muita calma nessa hora. O fato de muitas atrocidades terem sido feitas em nome de alguma coisa não significa que essa coisa seja ruim. Muitas atrocidades foram cometidas em nome da justiça (execução na cadeira elétrica é uma atrocidade, pelo menos eu acho), e nem por isso a justiça é má em si mesma. Muitas atrocidades foram (e continuam sendo) cometidas em nome do progresso, mas isso não torna o progresso algo ruim.

Não fosse a garantia da pluralidade democrática, o mesmo deputado que vocifera contra cultos de matriz africana ou direitos reprodutivos das mulheres, poderia ter sido queimado na fogueira da Inquisição católica ou morto por apedrejamento como infiel.

Já que vamos apelar pro lado emocional, por que parar por com os exemplos? Que tal: “ou decapitado pela Revolução Francesa, como Lavoisier”. Ou então “morto por uma ditadura comunista dos anos 60 (onde o estado era ateu), como dezenas de milhões de pessoas”. E essa lista poderia ser bastante longa, mas acho que já tá bom.

O Brasil é um país diverso. E quer continuar a sê-lo. Nele, não deve haver espaço para a intolerância. O Congresso não legisla apenas para quem tem religião. Tem de proteger a todos.

Essa sequência até tava indo razoavelmente bem, o problema é que o cara continuou:

Tentar impor uma ideologia religiosa por meio da ação legislativa desfigura nossa democracia.

Concordo plenamente. Devemos obrigar as pessoas a serem católicas ou espíritas ou neopetencostais ou seja lá o que for? Não, pois isso vai contra o conceito de Estado laico.

Mas é isso que os líderes religiosos estão fazendo? Há algum projeto de lei obrigando alguém a seguir determinada religião? Claro que não…

E como eu já disse antes: o homicídio é condenado por qualquer uma dessas ideologias religiosas. Isso “desfigura nossa democracia”? Devemos permiti-lo por esse motivo? É óbvio que não, pois isso não vai contra o conceito de Estado laico.

Os religiosos têm o direito de observar seus princípios, mas não podem impingi-los ao resto da população.

Será que vou ter que repetir a parada do homicídio outra vez?

O Brasil não é regido pela Bíblia. Que os religiosos cultuem o que quiserem, mas que respeitem quem não pensa e não quer viver como eles.

E o Brasil não é regido pelo Sr. Alexandre Vidal Porto. Que ele pense o que quiser, mas que respeite quem não pensa e não quer viver como ele. (adoro esses surtos totalitários do tipo “eu exijo que eles não tenham direito de exigir nada”)

É importante que as autoridades do governo tentem colocar em perspectiva a ação política de grupos religiosos no Brasil.

Notem que o termo “colocar em perspectiva” é propositalmente vago. O que ele quis dizer com isso? Calar? Ignorar? Censurar? Muito compatível com o conceito de Estado laico, citado no primeiro parágrafo, né? Tá vendo por que eu falei pra guardar bem o conceito?

Mas poxa, não deve ter sido isso que o cara quis dizer… Pode ser que eu tenha entendido errado: ele não quer calar os religiosos, e “colocar em perspectiva” significa alguma outra coisa. O problema – pra ele – é que tanto faz: o que ele está propondo é que se trate os religiosos de maneira diferente do resto da população. E tratar diferente é justamente discriminar. Ou seja: o que ele está pedindo é que haja discriminação religiosa, e é justamente esse tipo de atitude que um Estado laico deve coibir. E o cara ainda tem a cara de pau de vir com esse papo de “no Brasil não deve haver espaço pra intolerância”. Ah, faça-me o favor…

O Estado brasileiro é laico e deve comportar-se como tal.

Concordo plenamente, e com base nessa afirmação eu digo: esqueçam o que o Sr. Alexandre Vidal Porto escreveu aí em cima, pois as ideias dele não são compatíveis com um Estado laico.

Em mais de uma instância, minorias sociais têm visto seus direitos individuais virarem moeda de troca.

Moeda de troca? De que esse cara tá falando?!

Tolerar a intolerância pode render votos, mas não é uma forma justa de governar.

De acordo.

Conclusão

O que vimos? Um cara que joga várias afirmações que realmente fazem sentido, mas mistura no meio outras afirmações que não têm o menor cabimento, com o único intuito de retirar liberdades de uma parcela da população. Em nome do “Estado laico”, ele sugere que se pratique discriminação contra os religiosos. Muito coerente…

Sério: se o adjetivo “desonesto” não serve pra qualificar um cara desses, que adjetivo cabe? “Ignorante”? “Distraído”? “Bipolar”? Sinceramente não vejo nenhum melhor.

Anúncios

Written by criticareligiosa

28/03/2012 às 0:21

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. (…) “Os religiosos têm o direito de observar seus princípios, mas não podem impingi-los ao resto da população.”
    (…) “O Brasil não é regido pela Bíblia. Que os religiosos cultuem o que quiserem, mas que respeitem quem não pensa e não quer viver como eles.”

    Poder-se-ia dizer também: O Brasil não é regido por sonhos, esperanças e frustrações. Que os gays, os negros, os sem terra, os indios cultuem suas crenças, seus valores, procedam suas reivindicações etc, mas respeitem que não pensa e não quer viver com e como eles.

    G. Santargila

    25/05/2012 at 18:58


Fazer um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: