Crítica Religiosa

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Luis Fernando Veríssimo – Territórios livres

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Novamente venho analisar um texto que supostamente defende o estado laico. Dessa vez é o “Territórios livres“, de Luis Fernando Veríssimo, publicado no Estado de São Paulo no dia 22 de março de 2012:

Territórios livres

Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra gira em torno do Sol e não o contrário.

O texto já começa mal… Se fosse um adolescente de segundo grau fazendo essa afirmação, ok, eu saberia que se trata de alguém que não fez o dever de casa: não estudou o assunto suficientemente. Mas quando quem faz a afirmação é um escritor com a cultura de Luis Fernando Veríssimo, começo a desconfiar. Não é possível que Veríssimo não saiba que Galileu não foi condenado por “defender a ideia herética de que é a Terra gira em torno do Sol”, mas por querer ensiná-la como se fosse uma verdade científica, quando na verdade ela era apenas uma hipótese que inclusive foi combatida por muitos dos astrônomos da época, e que não era amparada por evidências suficientes que justificassem a substituição do modelo geocêntrico. Só pra constar: um dos argumentos contrários era a paralaxe estelar: se a Terra se move, deveríamos ver as estrelas mudando de lugar ao longo do ano, fato que hoje sabemos que ocorre, mas que não era possível observar com a tecnologia da época. Portanto, Galileu só foi punido pela insistência em afirmar como verdade científica o que ainda era uma hipótese (fato que em si já mostra uma ingerência indevida da Igreja, concordo). A prova disso é que o próprio criador do modelo heliocêntrico, Copérnico, nunca foi acusado de heresia pela Igreja. Veríssimo não sabe disso? Pode até ser, mas acho muito estranho que ele nunca tenha se interessado por buscar a verdade sobre esses fatos…

Ao mesmo tempo você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.

Nota: o geocentrismo nunca foi um dogma pétreo da Igreja Católica.

Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser preso será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal.

Aqui Veríssimo faz uma comparação entre épocas diferentes. Precisa esclarecer que isso é uma baita desonestidade? Precisa dizer que se hoje a Igreja não tem poder nenhum sobre ninguém, a não ser excomungar e reclamar das decisões do Congresso e do STF que são quase sempre contrárias aos seus ensinamentos?

E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.

Agora Veríssimo se esquece que Galileu era católico e assim permaneceu até sua morte (que foi natural, e não uma execução da Inquisição). Se ele realmente achasse sua condenação injusta, teria abandonado a Igreja. Mas não é isso o que a história nos conta…

Nota: se você se surpreendeu com algo que foi dito no parágrafo acima, é sinal que precisa urgentemente começar a ler. E muito.

O poder dela está por toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.

Note que o fato fictício envolve uma audiência para tratar de “filhos ilegítimos”, algo condenado pela Igreja. Mas “o poder da Igreja” vai condená-lo por isso? É óbvio que não. E o território, realmente é um território da Igreja? Também é óbvio que não: a sentença do juiz, seja qual for, não citará um versículo bíblico, mas uma lei elaborada pelo Estado. O crucifixo não afetará em absolutamente nada a decisão do juiz. E se o juiz resolver ser parcial, certamente a causa não será a presença ou ausência de um crucifixo atrás dele. Aliás, se isso acontecesse, seria praticamente uma prova da existência de forças sobrenaturais.

Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração.

Não, certamente não é um objeto de decoração. E não, também não é uma declaração, assim como a possível presença de uma imagem da deusa Têmis (um símbolo clássico da justiça) na mesa do juiz não é uma declaração de que ele vá seguir os preceitos da mitologia grega. Um crucifixo num tribunal é uma lembrança de um dos julgamentos mais injustos da história.

Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito.

Não, não é uma desobediência, pois não há lei que proíba. Desobediência implica uma ordem contrária, que não existe nesse caso.

Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.

Notem aqui o contorcionismo lógico: o que é condenável, um crucifixo na parede ou uma sentença injusta baseada em preceitos religiosos? Pela lógica de Veríssimo, o crucifixo é que é o problema, como se a presença de um crucifixo criasse um campo sobrenatural à sua volta, que afetasse a capacidade de discernimento de quem está próximo. Ele realmente acha que, existindo algum juiz que profere sentenças injustas baseadas em preceitos religiosos, esse juiz deixará de fazê-las por causa da ausência do crucifixo na sua sala? Caso positivo, pode mandar internar.

É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia.

Interessante ele citar Copérnico, que foi o responsável pela “ressurreição” da teoria heliocêntrica (que foi sugerida pela primeira vez por Filolau, na Grécia antiga), e que também era católico (foi cônego, inclusive), e que também não foi “queimado por heresia”. E por que não foi? Por que a Igreja não sabia de sua obra? Claro que sabia! Toda a Ciência passava (indevidamente, diga-se) pelo crivo da Igreja naquela época! E novamente: Galileu não foi queimado na fogueira da Inquisição, como o texto induzir o leitor a pensar, ainda que não afirme isso diretamente.

Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no poder judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Interessante o artigo ter sido escrito num jornal chamado “Estado de São Paulo“. A clara referência a um santo católico traz uma “lembrança de religião”, não traz? Isso faz com que os textos sejam influenciados pelo catolicismo? É óbvio que não! Mas será que Veríssimo acha que o jornal precisa mudar de nome para que prove a todos que está livre da influência maligna da Igreja Católica? Só se for doido! Mas com o crucifixo é diferente, claro…

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião.

Acho que eu vi um espantalho…

É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa.

Eu vi sim, eu vi um espantalho! Desde quando ostentar um crucifixo na parede é “impor sua religião aos outros”? Desde quando a presença de um crucifixo na parede tira a “liberdade de quem não acredita”? Ah, por favor…

Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial.

Muito interessante ele citar a questão dos preservativos, pois essa é justamente uma prova de que a Igreja Católica não tem poder nenhum nesse país. Se tivesse, talvez a camisinha fosse proibida, ou pelo menos não seria distribuída de graça pelo Governo, usando o dinheiro de todos os contribuintes, inclusive os católicos.

E o aborto? Ele parte da premissa que o aborto só é defendido por religiosos. E onde fica o direito dos ateus que são contra o aborto (conheço vários)? Aliás, provar que um feto humano não é um ser humano requer uma boa dose de contorcionismo lógico pra qualquer pessoa que conheça um mínimo de Biologia. E não vejo nenhum versículo bíblico nessa linha de argumentação.

E fiquei curioso: me diga qual é a igreja neopentecostal que condena os preservativos, por favor, pois eu nunca ouvi falar de nenhuma.

A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso de liberdade.

Declaração de liberdade uma pinóia, pois uma imagem colocada na parede não tira a liberdade de ninguém. A não ser, é claro, que ela seja tão grande que impeça as pessoas de se locomover através da sala.

Conclusão

Será que Veríssimo não percebe que a retirada dos crucifixos é justamente o que ele afirma ser inaceitável: a intromissão do Estado em assuntos religiosos? Será que ele não percebe que sua linha de argumentação vai contra o conceito de Estado laico? E ainda tem a cara de pau de basear a argumentação no conceito que ele quer violar? Fala sério…

Percebemos que se trata de um artigo desonesto que não apresenta nada além de malabarismos lógicos, com o intuito de defender uma arbitrariedade, colocando a religião ateísta acima das outras.

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Written by criticareligiosa

01/04/2012 at 0:05